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Carta da Redação — A Semana da Economia

Quando o Oriente Médio espirra, o mundo inteiro procura o termômetro — e o Brasil, curiosamente, sorri.
Cena de rua em cidade brasileira com moradores caminhando, comércio local e vendedor ambulante em atividade
Tensões no Oriente Médio elevam petróleo e inflação americana, enquanto o Brasil observa de longe com dólar estável e indústria em recuperação.

Há semanas em que a economia global parece um jogo de dominó: uma peça cai no Golfo Pérsico e todas as outras tremem. De fato, esta foi uma delas.

A Leitura da Semana

O Irã anunciou ataques a alvos em Israel, Kuwait, Emirados e Bahrein — e, em seguida, Donald Trump respondeu com ultimatos que elevaram a temperatura geopolítica a níveis que não víamos desde 2022. Por conseguinte, o petróleo disparou, os futuros americanos recuaram, e a inflação dos Estados Unidos deve registrar alta de 1% em março, o maior salto mensal em quatro anos. Além disso, a gasolina americana subiu US$ 1 por galão em poucas semanas, e os economistas já revisam para cima suas projeções de inflação para o ano. Curiosamente, enquanto Washington fala em “linguagem de ultimatos” — expressão que a Rússia usou para cobrar moderação —, Brasília observa de longe, com uma mistura de cautela e oportunismo discreto.

No front doméstico, Gabriel Galípolo assumiu o Banco Central em meio a expectativas de continuidade na política monetária, enquanto o governo federal fez duas trocas ministeriais às vésperas do período eleitoral — movimento que, por coincidência ou não, ocorre no momento em que onze governadores renunciam para disputar as eleições de outubro. Da mesma forma, a indústria brasileira avançou 0,9% em fevereiro, o dólar voltou ao nível pré-guerra, e a Bolsa subiu com a possibilidade de um acordo diplomático com o Irã. Portanto, o mercado brasileiro, sempre tão sensível a crises externas, desta vez reagiu com uma serenidade quase desconcertante — como se tivesse aprendido a não entrar em pânico ao primeiro sinal de fumaça no horizonte.

Enquanto isso, a Oxfam revelou que o 0,1% mais rico do planeta mantém US$ 3,55 trilhões escondidos em paraísos fiscais — valor superior a toda a riqueza da metade mais pobre da humanidade. Essa cifra, divulgada dez anos após o escândalo dos Panama Papers, é um lembrete de que algumas crises são mais silenciosas que explosões no Golfo Pérsico, mas não menos devastadoras. Por outro lado, o programa de subsídio ao diesel avançou com a habilitação de cinco empresas pela ANP, mas enfrenta resistência das principais distribuidoras — um sinal de que, mesmo com petróleo em alta, a política de preços no Brasil continua sendo um campo minado.

Perspectiva & Olhar da Redação

O que une esses eventos aparentemente dispersos? A percepção de que o Brasil está aprendendo a navegar em águas turbulentas sem perder o prumo. Por exemplo, enquanto os Estados Unidos enfrentam inflação crescente e tensões militares no Oriente Médio, o Brasil colhe os frutos de uma política monetária que, embora impopular, manteve a inflação sob controle. Dessa forma, o dólar estável, a indústria em recuperação e a Bolsa resiliente são sinais de que o país está, pela primeira vez em anos, conseguindo se beneficiar do caos alheio — não por mérito próprio, mas por ter feito o dever de casa quando ninguém estava olhando.

A ironia é que, enquanto Trump ameaça o Irã e a inflação americana acelera, o Brasil se vê numa posição inusitada: a de espectador privilegiado. Não porque esteja imune às crises globais — nunca esteve —, mas porque, desta vez, os problemas estão concentrados em outros lugares. No entanto, a questão é saber quanto tempo essa janela de oportunidade vai durar. Por um lado, o petróleo em alta pode ser bom para a Petrobras, mas ruim para o consumidor. Por outro lado, a inflação americana pode atrasar cortes de juros por lá, mas também pode valorizar o real. Assim, o Brasil está surfando uma onda que não criou — e que pode virar a qualquer momento.

Finalmente, a semana termina com uma sensação estranha: a de que, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil não é o protagonista do drama econômico global. É um papel secundário, quase coadjuvante — mas, convenhamos, depois de tantos anos no centro do palco por motivos errados, ser coadjuvante não soa tão mal assim. Contudo, a pergunta que fica é simples, mas incômoda: o Brasil está finalmente amadurecendo — ou apenas teve sorte de não estar no lugar errado na hora errada?

— Vitor Ribeiro
Correio Capital

Foto de Vitor Ribeiro

Vitor Ribeiro

Jornalista especializado em comércio internacional e economia global. Cobre as exportações brasileiras, o agronegócio e as relações comerciais do Brasil com o mundo. No Correio Capital, assina as seções Comércio Global e Brasil no Mundo.
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