A obesidade no Brasil saltou 118% entre 2006 e 2024, atingindo 1 em cada 4 adultos (25,7%), segundo dados do Ministério da Saúde. Nesse cenário, a Abeso publicou pela primeira vez uma diretriz exclusiva sobre o uso de medicamentos para tratar a doença, reconhecendo uma mudança de paradigma na forma como a medicina lida com o problema.
Até então, as orientações sobre remédios apareciam apenas como capítulos dentro de outros documentos. Agora, os medicamentos ganham protagonismo próprio. A nova diretriz reúne 32 recomendações elaboradas por endocrinologistas, clínicos gerais e nutricionistas, e inclui pela primeira vez a classe de análogos de GLP-1 — medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, que simulam um hormônio que promove saciedade e podem levar à perda de mais de 20% do peso corporal.
Quem pode usar e como
O documento define critérios claros: o tratamento farmacológico é indicado para pessoas com índice de massa corporal (IMC — a relação entre peso e altura ao quadrado) igual ou superior a 30 kg/m², o que caracteriza obesidade. Também pode ser prescrito para quem tem IMC a partir de 27 kg/m² (sobrepeso) mas apresenta complicações relacionadas ao excesso de gordura, como diabetes ou hipertensão.
A diretriz é enfática: os medicamentos nunca devem ser usados isoladamente, mas sempre combinados com mudanças no estilo de vida, incluindo orientação nutricional e atividade física. É como tratar hipertensão: o remédio ajuda, mas não dispensa cuidados com alimentação e exercícios. Para a maioria dos pacientes, o uso precisa ser contínuo — estudos mostram que o peso retorna em cerca de 1,7 ano após a interrupção da medicação.
Comparação internacional
A título de comparação, países como Reino Unido e Estados Unidos já incorporaram análogos de GLP-1 em seus sistemas públicos de saúde para casos específicos de obesidade. No Brasil, nenhum medicamento para obesidade está incorporado nacionalmente no SUS, embora alguns prefeitos e governadores tenham anunciado iniciativas locais. A expectativa é que o fim da patente da semaglutida traga versões mais acessíveis ao mercado.
Uso indevido preocupa
A diretriz alerta contra o uso recreativo dos medicamentos por pessoas que apenas querem perder alguns quilos, sem diagnóstico de obesidade ou sobrepeso com complicações. Também adverte sobre os riscos de formulações magistrais e falsificadas, e reforça que apenas médicos podem prescrever essas canetas — nutricionistas e esteticistas não têm essa atribuição.
Alexandre Hohl, diretor da Abeso, resume: “Estamos falando sobre pessoas que vivem com obesidade, e que os remédios podem ajudar muito a aliviar o sofrimento. Não é sobre perder uns quilinhos.”
📊 Número do Dia
118% , Foi o aumento da obesidade no Brasil entre 2006 e 2024, segundo o Ministério da Saúde
Por que isso importa
A nova diretriz reconhece a obesidade como doença crônica que exige tratamento de longo prazo, não apenas força de vontade. Para o cidadão, significa acesso a orientações médicas mais claras e, potencialmente, maior pressão por incorporação desses medicamentos no SUS. Para empresas farmacêuticas, sinaliza um mercado em expansão: com 1 em cada 4 brasileiros obesos, a demanda por tratamentos eficazes tende a crescer, especialmente quando versões genéricas mais baratas chegarem ao mercado após o fim das patentes.












