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China explora comprar mais petróleo iraniano após alívio americano

Janela de oportunidade de um mês enfrenta obstáculos financeiros e receios de grandes refinarias estatais asiáticas
Operador em sala de controle industrial monitorando sistemas de fluxo de petróleo em múltiplos monitores com dados de produção
Refinarias estatais da China começaram a sondar a compra de mais petróleo bruto do Irã após os Estados Unidos suspenderem temporariamente as sanções contra o óleo iraniano, em meio à crise energética provocada pela guerra no Oriente Médio.

As refinarias estatais da China começaram a explorar a compra de mais petróleo bruto iraniano depois que os Estados Unidos suspenderam temporariamente as sanções contra o óleo do Irã. Segundo o jornal O Globo, portanto, a medida americana — válida por apenas um mês, até 19 de abril — permite a venda de parte do petróleo já carregado em navios-tanque, numa tentativa de conter a alta de preços causada pela guerra no Oriente Médio. Em seguida, representantes da Companhia Nacional de Petróleo do Irã e traders intermediários têm sondado discretamente potenciais compradores entre refinarias asiáticas.

Contudo, a janela de oportunidade é estreita e cheia de armadilhas. Obstáculos como pagamentos (o Irã segue fora do sistema financeiro internacional), transporte marítimo e riscos reputacionais fazem os compradores hesitarem. De fato, Muyu Xu, analista sênior de petróleo bruto na Kpler Ltd., em Cingapura, afirmou ao jornal que “é improvável que os fluxos de petróleo iraniano mudem de forma significativa no curto prazo”. Dessa forma, a Sinopec (China Petroleum & Chemical Corp), maior refinaria da China, declarou que ainda evitaria o petróleo iraniano, citando a curta janela de entrega e riscos legais quando a isenção expirar.

O contexto das sanções

Anteriormente, o Irã já foi um fornecedor-chave para grandes importadores asiáticos, incluindo Coreia do Sul e Japão, antes do endurecimento das restrições americanas. A China é hoje o comprador individual mais importante do petróleo de Teerã — uma tábua de salvação financeira vital para o regime iraniano. No entanto, os compradores chineses tendem a ser refinarias privadas menores, com menor exposição aos mercados internacionais. Assim, grandes estatais mantinham distância, receosas de serem envolvidas em sanções dos EUA (punições econômicas que podem incluir bloqueio de ativos e proibição de fazer negócios em dólares).

Segundo o vice-presidente da Sinopec, Zhao Dong, em teleconferência de resultados em Hong Kong, além disso, a empresa reduziu as taxas de operação em 5% em março para economizar petróleo, à medida que dificuldades de navegação pelo Estreito de Ormuz (passagem marítima estreita por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial) restringem o fornecimento de petróleo bruto. Dong reconheceu que os preços mais altos do petróleo, provocados pela guerra envolvendo o Irã, podem acelerar a adoção de veículos elétricos — uma ironia para uma refinaria.

Comparação internacional

Da mesma forma, a situação lembra o dilema enfrentado por compradores europeus de petróleo russo após a invasão da Ucrânia em 2022. Naquele caso, por exemplo, sanções ocidentais criaram um mercado paralelo, com a Índia e a China comprando petróleo russo com grandes descontos — em alguns momentos, até US$ 30 por barril abaixo do preço de referência Brent. Agora, o petróleo iraniano vendido à China já subiu de preço: o Iranian Light foi ofertado com um pequeno prêmio em relação ao ICE Brent (o preço de referência internacional do petróleo), comparado a descontos de mais de US$ 10 por barril no mês passado.

Por outro lado, a mais recente isenção do Tesouro dos EUA segue medidas semelhantes para facilitar o acesso ao petróleo russo, enquanto a Casa Branca tenta aliviar um aperto na oferta e conter os preços globais. Sobretudo, Pequim acumulou cerca de 1,4 bilhão de barris em reservas estratégicas (o equivalente a cerca de 100 dias de consumo chinês), que poderiam ser utilizados caso as interrupções persistam, segundo a Sinopec.

Os riscos ocultos

Armadores com trânsito internacional, novos no comércio de petróleo bruto iraniano, aguardam mais detalhes e expressaram preocupação de que possam estar se expondo a riscos ocultos de sanções ao lidar com intermediários envolvidos no comércio clandestino. Visto que há muita incerteza, Karnan Thirupathy, sócio do escritório Kennedys Law LLP e especialista em sanções, afirmou ao jornal que “há muita incerteza em relação ao comércio e também sobre o que acontecerá após 19 de abril caso a transação não seja concluída”.

Por conseguinte, até mesmo intermediários experientes no comércio de petróleo sancionado estão analisando as letras miúdas para entender o que é permitido e evitar penalidades futuras. Portanto, sem clareza sobre detalhes-chave, é improvável que os compradores desses volumes transportados por via marítima mudem, segundo fontes ouvidas pelo jornal.

📊 Número do Dia

1,4 bilhão , Barris de petróleo acumulados pela China em reservas estratégicas, equivalente a cerca de 100 dias de consumo do país

Por que isso importa

Para o Brasil, ou seja, a dinâmica do mercado global de petróleo afeta diretamente a Petrobras e a arrecadação federal. Por isso, preços mais altos do petróleo aumentam a receita da estatal e os royalties pagos aos estados produtores, mas também pressionam a inflação via combustíveis — o que pode levar o Banco Central a manter os juros altos por mais tempo, encarecendo o crédito para empresas e consumidores. Finalmente, a crise no Oriente M

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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