Curiosamente, a semana em que o Oriente Médio voltou a incendiar os mercados foi também aquela em que o Brasil decidiu discutir a escala 6×1.
A Leitura da Semana
O petróleo disparou, o dólar fechou a R$ 5,30 e o Ibovespa despencou 2,25% — tudo isso na mesma quinta-feira em que Israel sinalizou possíveis ataques às usinas de energia do Irã. De fato, a tensão geopolítica não é novidade, mas sua velocidade de contágio aos mercados emergentes continua impressionante. O Brasil, exportador líquido de petróleo desde 2023, deveria em tese se beneficiar da alta dos preços. No entanto, o mercado, sempre tão previsível, preferiu punir o risco cambial e a fuga de capital estrangeiro. Por conseguinte: quem ganha com o barril caro perde com o real fraco — e vice-versa.
Enquanto isso, o ministro da Fazenda Dario Durigan fez seu primeiro pronunciamento oficial para acalmar os ânimos sobre combustíveis. Além disso, ele garantiu que o governo tem “medidas alternativas” caso o ICMS sobre o diesel não avance no Congresso — sem especificar quais. A declaração veio no momento exato em que caminhoneiros ameaçavam paralisação, lembrando a todos que 2018 ainda está na memória coletiva. Lula, por sua vez, defendeu a criação de uma reserva estratégica de combustíveis e cobrou o Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra no Irã. Dessa forma, a diplomacia brasileira tenta construir pontes enquanto o mercado constrói muros.
No front doméstico, a proposta de acabar com a escala 6×1 ganhou tração no Congresso e nas redes sociais — e resistência imediata do empresariado. Eduardo Peres, CEO da Multiplan, declarou que reduzir a jornada de trabalho seria inviável para o varejo. Sobretudo, a discussão expõe uma tensão antiga: o Brasil quer crescer com produtividade ou com mais horas trabalhadas? Enquanto isso, o Banco Central comunicou que 28 mil chaves Pix da Pefisa ficaram expostas por seis meses — um lembrete de que nem toda crise vem de fora.
Perspectiva & Olhar da Redação
O que conecta petróleo iraniano, escala de trabalho e vazamento de dados? Portanto, a sensação de que o Brasil está sempre reagindo, nunca antecipando. O país tem reservas de petróleo, mas não tem reserva estratégica de combustíveis. Da mesma forma, discute jornada de trabalho, mas não discute produtividade. Além disso, protege o Pix, mas expõe dados por meio ano. Contudo, não são falhas isoladas — são sintomas de uma economia que ainda não decidiu se quer ser previsível ou apenas resiliente.
O mercado, por sua vez, segue fazendo o que sempre fez: punir a incerteza e premiar a clareza. Assim, o dólar a R$ 5,30 não é catástrofe — é apenas o preço da indefinição. Ou seja, o Ibovespa caiu porque investidores estrangeiros saíram, não porque as empresas brasileiras pioraram. A diferença é sutil, mas importante: o problema não está nas fundações, está na percepção de risco.
A boa notícia? O Brasil já passou por isso antes — e sobreviveu. Em contrapartida, a má notícia? Sobreviver não é a mesma coisa que prosperar. Enquanto o país debate escalas de trabalho e o governo improvisa respostas para crises externas, o mundo segue em frente. Por exemplo, a França manda 4.500 empresários para Minas Gerais. Em seguida, a Uber investe US$ 1,25 bilhão em carros autônomos — mas não no Brasil. Finalmente, a pergunta não é se o país vai crescer. É se vai crescer rápido o suficiente para não ficar para trás.
Afinal, quando o petróleo sobe e o real cai ao mesmo tempo, quem exatamente está ganhando?
— Vitor Ribeiro
Correio Capital












