Página inicial / Brasil no Mundo / Uber planeja robotáxis no Brasil, mas desafios ainda travam chegada

Uber planeja robotáxis no Brasil, mas desafios ainda travam chegada

Empresa investe US$ 1,25 bilhão em frota autônoma nos EUA, mas trânsito caótico nacional exige tecnologia específica
Motorista dirigindo veículo com smartphone no suporte, mostrando tecnologia de transporte urbano e aplicativos de mobilidade
A Uber anunciou investimento de até US$ 1,25 bilhão na montadora Rivian para lançar 10 mil robotáxis autônomos nos Estados Unidos, Canadá e Europa até 2028. Apesar do Brasil ser um dos maiores mercados da empresa, a chegada dos carros sem motorista por aqui ainda enfrenta obstáculos regulatórios e tecnológicos.

A Uber está acelerando sua aposta em veículos autônomos, mas o Brasil ainda não entrou no mapa de curto prazo. Dessa forma, a empresa de mobilidade anunciou na quinta-feira (19) um investimento de até US$ 1,25 bilhão na montadora norte-americana Rivian para criar uma frota de 10 mil robotáxis — carros que dirigem sozinhos, sem motorista humano — que começarão a operar em São Francisco e Miami a partir de 2028. Além disso, a iniciativa faz parte de uma estratégia global que já coloca veículos autônomos nas ruas de cidades como Phoenix, Dubai e Abu Dhabi.

Em entrevista exclusiva ao GLOBO realizada em Dubai, Noah Zych, gerente global de mobilidade autônoma da Uber, explicou que o Brasil, apesar de ser um dos maiores mercados da empresa no mundo, ainda precisa de avanços importantes antes de receber a tecnologia. “Atualmente, não conhecemos provedores de tecnologia desenvolvendo especificamente para o cenário brasileiro, que é um ambiente de direção complexo e exige regulamentação própria”, afirmou Zych. De fato, o executivo reconhece que o trânsito caótico de metrópoles como São Paulo — com suas motos ziguezagueando, pedestres atravessando fora da faixa e sinalização nem sempre respeitada — representa um desafio técnico significativo.

Como funciona um robotáxi

Os veículos autônomos da Uber utilizam uma combinação de sensores chamados LIDAR (que funcionam como um radar a laser, medindo distâncias), câmeras e radares convencionais espalhados por toda a carroceria. Esse conjunto permite que o carro “enxergue” 360 graus ao seu redor o tempo todo, identificando outros veículos, pedestres e até a cor dos semáforos. Ou seja, é como se o carro tivesse dezenas de olhos eletrônicos trabalhando simultaneamente, processando informações muito mais rápido do que um motorista humano conseguiria.

Quando o sistema detecta algo inesperado — uma obra na rua, um policial fazendo sinal manual ou um objeto bloqueando a via —, assistentes remotos monitoram a situação de um centro de controle. Se o veículo ficar “confuso” e parar, um operador humano pode se conectar remotamente e dar instruções, como “você pode cruzar a linha central para desviar”. Por outro lado, no pior cenário, alguém é despachado para remover o carro fisicamente e outro veículo busca os passageiros.

A estratégia de parcerias

Diferentemente de concorrentes como a Tesla, que desenvolve sua própria tecnologia de ponta a ponta, a Uber optou por um modelo de parcerias. A empresa trabalha com gigantes como a chinesa Baidu (que opera robotáxis em várias cidades da China) e startups menores como a britânica Wayve. Assim, cada parceiro traz o software de direção autônoma e os veículos, enquanto a Uber entra com sua plataforma de pedidos, suporte ao cliente e estrutura de seguros — sua especialidade há mais de uma década.

A título de comparação, a China já possui mais de 16 mil robotáxis operando comercialmente em dezenas de cidades, segundo dados públicos de 2025, enquanto os Estados Unidos têm cerca de 2 mil veículos em operação limitada. O Brasil, por outro lado, ainda não possui sequer um projeto-piloto regulamentado de veículos autônomos para transporte de passageiros. Contudo, a regulamentação brasileira atual exige que sempre haja um motorista humano ao volante, mesmo em testes experimentais.

Quando chegará ao Brasil

Zych foi cauteloso ao falar sobre prazos para o mercado brasileiro, mas deixou uma porta aberta: “Lugares que antes pensávamos estar muito longe de receber a condução autônoma, por serem desafiadores, podem se tornar aptos antes do que imaginávamos”. O executivo citou o exemplo da Baidu, que conseguiu adaptar sua tecnologia rapidamente a novos ambientes urbanos complexos, sugerindo que a evolução tecnológica está acelerando. Portanto, essa evolução pode acelerar também a chegada da tecnologia ao Brasil.

Para que os robotáxis cheguem ao Brasil, três peças precisam se encaixar: primeiro, um parceiro tecnológico disposto a desenvolver software específico para o trânsito brasileiro; em seguida, uma regulamentação clara que permita a operação comercial desses veículos; e finalmente, a maturação de algoritmos capazes de lidar com situações imprevisíveis — como um motociclista surgindo entre os carros ou um pedestre atravessando fora da faixa. Por isso, é como ensinar uma criança a andar de bicicleta: primeiro em ambiente controlado, depois em ruas tranquilas, e só então no trânsito pesado.

📊 Número do Dia

US$ 1,25 bilhão , Valor que a Uber investirá na Rivian para criar frota de 10 mil robotáxis nos EUA, Canadá e Europa até 2028

Por que isso importa

Para o cidadão brasileiro, a chegada dos robotáxis pode significar corridas mais baratas no futuro — sem o custo do motorista, que representa cerca de 60% do valor de uma viagem de aplicativo. Da mesma forma, para empresas de tecnologia e montadoras, o Brasil representa uma oportunidade gigantesca: somos o segundo maior mercado da Uber no mundo, com milhões de corridas di

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
Banner vertical do jornal Correio Capital com mensagem institucional convidando para acompanhar análises sobre a economia brasileira e assinar a newsletter.

Últimas notícias