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Carta da Redação : A Semana da Economia

Quando o petróleo vira refém da geopolítica e o diesel brasileiro paga a conta
Executivo de terno assinando documentos em mesa de reunião em escritório corporativo com vista panorâmica urbana
Quando o Estreito de Ormuz fecha para alguns, o diesel brasileiro sobe para todos. A semana em que a geopolítica do petróleo cobrou sua conta.

Curiosamente, a semana em que o mundo descobriu que o Estreito de Ormuz pode fechar para alguns mas não para todos foi a mesma em que o brasileiro viu o diesel subir na bomba.

Leitura da Semana

A Agência Internacional de Energia anunciou a liberação de 400 milhões de barris das reservas emergenciais de petróleo, uma medida que só acontece quando o mercado global está genuinamente nervoso. Por outro lado, o Irã informou que o Estreito de Ormuz está aberto para todos, exceto Estados Unidos e Israel, uma declaração que soa quase educada até você lembrar que por ali passa um terço do petróleo mundial. Enquanto isso, o governo Trump admitiu que a guerra no Oriente Médio ainda deve durar semanas e que não há garantias para o mercado de petróleo. Portanto, a tradução é clara: preparem-se para volatilidade.

No Brasil, por sua vez, a Petrobras atribuiu o aumento do diesel precisamente a essa guerra, e o dólar fechou a semana em R$ 5,32, o maior valor desde janeiro. De fato, a matemática é simples: petróleo mais caro em dólar + dólar mais caro em real = diesel mais caro na bomba. Assim, o vice-presidente Alckmin garantiu que o governo prioriza o abastecimento e quer evitar alta do diesel, enquanto a FUP (Federação Única dos Petroleiros) aproveitou para lembrar que o reajuste mostra as limitações do mercado brasileiro. Contudo, a ironia é que privatizar a Petrobras era para nos proteger da política, mas não nos protege da geopolítica.

Em meio a tudo isso, no entanto, Haddad estimou que a economia brasileira pode crescer 1% no primeiro trimestre. Não é espetacular, mas também não é catastrófico, especialmente considerando que o mundo está literalmente em chamas (ou seja, pelo menos o Oriente Médio está). Além disso, o governo também levantou R$ 179 bilhões desde 2023 para transição ecológica e autorizou R$ 2 bilhões em obras de infraestrutura no Paraná. Dessa forma, são números que sugerem planejamento, investimento, continuidade, palavras que o mercado adora, mesmo quando pronunciadas em meio ao caos.

Perspectiva & Olhar da Redação

O que essa semana nos ensina é que a economia brasileira está cada vez mais integrada ao mundo, para o bem e para o mal. Por exemplo, quando o Irã espirra no Estreito de Ormuz, o caminhoneiro brasileiro sente na carteira. Por isso, não adianta ter a melhor política fiscal do hemisfério se um conflito a 12 mil quilômetros de distância pode derrubar tudo. É a globalização funcionando exatamente como prometido: eficiente, interconectada e absolutamente imprevisível.

Mas há um lado positivo nessa história toda. Em contrapartida, o Brasil está crescendo, devagar, mas crescendo. Sobretudo, o governo está investindo em infraestrutura e transição ecológica. O dólar subiu, sim, mas não explodiu. Da mesma forma, a Petrobras reajustou o diesel, mas o abastecimento está garantido. Portanto, são pequenas vitórias em meio a uma tempestade global. Não é motivo para comemorar, mas também não é motivo para desespero.

A questão é: até quando conseguimos navegar nesse mar agitado sem molhar os pés? Visto que o Brasil tem mostrado resiliência, a economia cresce mesmo com o mundo pegando fogo, o mercado se ajusta sem entrar em pânico, o governo mantém o planejamento mesmo sob pressão. Contudo, resiliência tem limite. E o Oriente Médio, aparentemente, não.

Afinal, o que é mais previsível: a economia brasileira ou a geopolítica do petróleo?

Vitor Ribeiro
Correio Capital

Foto de Vitor Ribeiro

Vitor Ribeiro

Jornalista especializado em comércio internacional e economia global. Cobre as exportações brasileiras, o agronegócio e as relações comerciais do Brasil com o mundo. No Correio Capital, assina as seções Comércio Global e Brasil no Mundo.
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