A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã transformou o Golfo Pérsico — até então visto como porto seguro para investimentos em tecnologia — em zona de risco para as gigantes americanas. Por exemplo, a Amazon, que investiu mais de US$ 10 bilhões na Arábia Saudita em 2024 e opera data centers (grandes instalações repletas de computadores que armazenam dados e processam informações na internet) no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos, viu três dessas estruturas serem danificadas por ataques de drones iranianos no início de março.
Anteriormente, a região havia se tornado um polo de atração para empresas como Google, Microsoft e OpenAI, que correram para construir a infraestrutura necessária para desenvolver inteligência artificial. Os gastos com tecnologia para data centers e computação em nuvem (serviços que permitem armazenar dados e rodar programas pela internet, sem precisar de servidores próprios) cresceram 75% no ano passado no Oriente Médio, chegando a US$ 895 milhões, segundo a consultoria IDC. Da mesma forma, no total, os investimentos em tecnologia na região saltaram de US$ 36 bilhões em 2020 para US$ 65 bilhões em 2025.
O Irã ameaçou ampliar os ataques contra a “infraestrutura tecnológica inimiga” de sete empresas americanas: Amazon, Microsoft, Google, Palantir, Nvidia, IBM e Oracle. Além disso, na quinta-feira, o líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei alertou que o país estaria “abrindo outras frentes onde o inimigo tem pouca experiência”. Para entender a dimensão do problema, ou seja, imagine que essas empresas construíram armazéns gigantes para guardar os dados de milhões de clientes — e agora esses armazéns estão em uma zona de guerra.
Por conseguinte, Simon Williams, executivo da empresa de IA Atelic AI em Dubai, relatou que perdeu completamente o acesso aos servidores da Amazon após os ataques. “Eles foram derrubados. Perdemos todo o acesso aos nossos servidores. Isso teve um grande impacto no nosso negócio”, afirmou. A Amazon sugeriu que clientes transferissem suas operações para data centers em outras regiões e informou estar “ajustando as operações em resposta à evolução da situação”.
Comparação internacional
Enquanto o setor de energia aprendeu há décadas a lidar com instabilidade no Oriente Médio, as empresas de tecnologia subestimaram os riscos geopolíticos. Segundo Steffen Hertog, professor da London School of Economics, “o setor de energia tem muito mais experiência em lidar com riscos geopolíticos tradicionais do que o setor de tecnologia”. A título de comparação, portanto, produtoras de petróleo como Shell e ExxonMobil mantêm operações no Golfo desde os anos 1930 e desenvolveram protocolos sofisticados de gestão de risco — algo que as big techs ainda não possuem.
Nesse contexto, Dave Komendat, ex-chefe de segurança da Boeing e hoje consultor, classificou o ataque como “um evento de baixa frequência e alto impacto” que transformará a forma como empresas avaliam riscos antes de construir infraestrutura crítica. Xiaomeng Lu, do Eurasia Group, alertou que a guerra deve prejudicar os esforços dos países do Golfo para atrair investimentos em tecnologia, especialmente nos Emirados Árabes Unidos, que fazem fronteira com o Irã.
Por isso, o desfecho da guerra será determinante para o futuro dos investimentos na região. Se o conflito terminar rapidamente, dessa forma, o impacto pode ser limitado. Contudo, segundo Lu, “se durar meses e meses, estaremos em um cenário muito diferente” — com empresas repensando bilhões em projetos já anunciados.
📊 Número do Dia
US$ 10 bilhões , Valor investido pela Amazon na Arábia Saudita em 2024, agora em risco com a escalada do conflito no Golfo Pérsico
Por que isso importa
Para investidores, sobretudo, a guerra expõe a fragilidade de apostas bilionárias em regiões instáveis e pode forçar reavaliação de portfólios com exposição a big techs. Para empresas brasileiras que usam serviços de nuvem dessas companhias, no entanto, há risco de interrupções e necessidade de planos de contingência. Para o cidadão, finalmente, a instabilidade pode afetar desde o funcionamento de aplicativos até o preço de produtos tecnológicos, caso as empresas repassem custos de relocação de infraestrutura.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/14/guerra-no-ira-poe-em-xeque-investimentos-das-big-techs-dos-eua-no-golfo-persico.ghtml












