O balanço de França reconhece conquistas concretas: saída de brasileiros da pobreza, aumento do poder de compra do salário mínimo e ampliação da proteção pelo Bolsa Família. O autor também destaca a expansão das universidades, a criação dos institutos federais e as ações afirmativas como caminhos de acesso para grupos historicamente excluídos.
Na avaliação apresentada na Folha de S.Paulo, porém, esses avanços não alteraram na mesma proporção a distribuição do patrimônio. A renda dos mais pobres se aproximou da renda da classe média, enquanto os mais ricos continuaram distantes do restante da população. É nessa diferença que está o centro econômico do argumento.
Renda maior não equivale a patrimônio distribuído
Renda é o que se recebe ao longo de um período; patrimônio é o conjunto de bens e direitos acumulados. Elevar salários e transferências pode melhorar imediatamente a capacidade de uma família comprar alimentos, pagar serviços e organizar suas despesas. Isso não significa, por si só, uma redistribuição equivalente da propriedade e dos ativos.
A distinção não diminui o valor da proteção social. Ela mostra por que uma melhora no orçamento familiar pode coexistir com elevada concentração de riqueza. Se parte da renda adicional puder ser poupada, haverá espaço para acumular patrimônio, mas essa passagem depende das condições de cada família, não apenas do aumento de seus recebimentos.
Como sustentar a inclusão
França aponta a eficiência do Estado e a reorganização das prioridades públicas como questões para um eventual novo mandato. Seu argumento combina responsabilidade fiscal com preservação de investimentos capazes de melhorar serviços e elevar a produtividade, isto é, produzir mais valor com os recursos disponíveis.
O mecanismo importa para a continuidade dos ganhos sociais. Se um investimento público melhorar efetivamente a formação dos trabalhadores ou a prestação de serviços, poderá ampliar a capacidade produtiva. Já o gasto que consome recursos sem entregar resultados equivalentes reduz o espaço para outras prioridades. A diferença está no efeito obtido, não apenas no nome dado à despesa.
A tensão do legado, portanto, não exige escolher entre inclusão e equilíbrio das contas. Exige que a proteção presente seja acompanhada de condições para gerar renda no futuro. Sem esse segundo movimento, redistribuir os frutos da economia pode continuar necessário, mas insuficiente para reduzir a distância patrimonial destacada pelo colunista.
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Por que isso importa
Melhorar a renda das famílias reduz privações, mas não transforma automaticamente a distribuição do patrimônio. Sustentar os avanços sociais depende também da capacidade produtiva e dos resultados obtidos com os recursos públicos.
