O ponto de partida é um banco em expansão. No primeiro semestre de 2026, o BNDES desembolsou R$ 75,6 bilhões em crédito, alta de 31,2% sobre o mesmo período de 2025. Segundo os dados da instituição reproduzidos pela Folha, a comparação usa valores corrigidos pela inflação: portanto, o aumento representa crescimento real dos recursos liberados, não apenas atualização dos preços.
A mudança projetada pelos economistas seria na divisão de tarefas entre o banco público e os financiadores privados. Juliana Inhasz, professora do Insper, avalia que um eventual governo Flávio tenderia a usar menos o BNDES, mas não a dispensá-lo. A expectativa é que uma parcela maior do crédito venha do próprio mercado.
Menos crédito público exige uma alternativa
Reduzir os desembolsos públicos não garante que o crédito privado ocupe o espaço. Para isso ocorrer, os projetos precisam oferecer condições de risco, prazo e retorno que atraiam outros financiadores. Se houver essa disposição, empresas poderão trocar a origem dos recursos sem necessariamente reduzir investimentos. Se ela faltar, parte dos projetos poderá ser adiada ou redimensionada.
Essa diferença torna a seleção dos financiamentos tão importante quanto o tamanho do banco. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, projeta uma instituição concentrada em projetos com benefício social relevante nos quais bancos privados não entram. Nesse desenho, o critério seria financiar investimentos que poderiam não acontecer sem a participação pública, e não apenas disputar clientes já atendidos pelo mercado.
Os planos preservam espaço para o banco
A previsão de encolhimento não equivale a uma medida aprovada. O plano de Flávio prevê apoio à internacionalização de pequenas e médias empresas via BNDES e financiamento de obras no país. Já o plano de Lula não menciona a instituição. Para o economista Gilberto Braga, ouvido pela Folha, uma reeleição tenderia a preservar a orientação adotada desde 2023.
A atual gestão do banco sustenta que sua atuação complementa o mercado e defende o financiamento de áreas estratégicas e arriscadas, como transição energética e inovação. Esse argumento precisa ser avaliado pelo investimento que o crédito torna possível: emprestar a uma empresa não demonstra, por si só, que ela ficaria sem financiamento privado.
O resultado econômico de um BNDES menor dependeria, assim, de quais operações fossem reduzidas. Retirar recursos de projetos capazes de obter crédito privado pode preservar investimentos com menor participação estatal. Cortar onde não há alternativa de financiamento pode diminuir o investimento, mesmo que o banco fique mais enxuto.
📊 Número do Dia
R$ 75,6 bilhões : Crédito desembolsado pelo BNDES no primeiro semestre de 2026, com alta real de 31,2% sobre igual período de 2025.
Por que isso importa
Uma redução do BNDES mudaria a origem do financiamento às empresas. O efeito sobre o investimento dependeria da capacidade e do interesse dos financiadores privados em atender os projetos que perdessem acesso ao banco público.
