A presidência turca quer impulsionar a Plataforma de Istambul, apresentada em junho para reunir soluções de redução de resíduos hoje dispersas em diferentes áreas. Christian Mensah, conselheiro do campeão climático da COP31, disse à Folha de S.Paulo que a intenção é lançar uma declaração de apoio à plataforma durante a conferência, aberta à assinatura dos países.
A ambição anunciada é reduzir pela metade o crescimento global dos resíduos até 2035. Isso não equivale a cortar pela metade o volume de lixo produzido. A distinção importa: desacelerar o aumento pode representar avanço em relação à trajetória esperada, mesmo que a quantidade total continue crescendo.
Coordenar soluções sem esperar um acordo
A aposta é avançar pela Agenda de Ação, que mobiliza governos e setor privado com medidas voluntárias. Segundo a reportagem, a negociação formal das conferências exige consenso entre representantes de quase 200 países. Trabalhar fora dessa mesa pode facilitar iniciativas entre os interessados, mas a adesão, por si só, não demonstra redução de resíduos.
O mecanismo econômico está em transformar descarte em insumo: aquilo que uma empresa joga fora pode servir à produção de outra. Ao aproximar esses agentes e organizar soluções existentes, a plataforma pode reduzir o custo de encontrar parceiros. Essa é a lógica da circularidade, que busca minimizar perdas e reaproveitar materiais.
A troca, porém, precisa fazer sentido econômico. Se separar, transportar e preparar o resíduo custar mais do que seu aproveitamento proporciona, a conexão entre empresas pode não se sustentar. Para governos e empresas do Brasil, uma eventual participação envolveria avaliar essas condições, e não apenas endossar a declaração.
Tributação é uma defesa, não uma decisão
Mensah também defendeu taxar empresas cujos produtos geram muito lixo. Trata-se de uma posição do conselheiro, não de uma medida aprovada. Uma cobrança desse tipo pode incentivar a redução do descarte ao incorporá-lo aos custos da produção; seu efeito dependeria do desenho e das alternativas disponíveis às empresas.
Há uma razão climática para buscar resultados: segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática citados pela Folha, os resíduos responderam por 4% das emissões globais de gases de efeito estufa em 2019. A contribuição da plataforma dependerá de converter encontros e compromissos em reaproveitamento economicamente viável e redução efetiva do lixo, não apenas em novas assinaturas.
📊 Número do Dia
4% : Participação dos resíduos nas emissões globais de gases de efeito estufa em 2019, segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática citados pela Folha.
Por que isso importa
A articulação entre empresas pode transformar resíduos em insumos e reduzir perdas. Para produzir resultados, porém, o aproveitamento precisa compensar seus custos, e a adesão voluntária precisa se traduzir em mudanças efetivas.
