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terça-feira, 27 de outubro de 2026 Brasil

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Nissan vê carro importado em partes inflando estatística nacional

Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em 17 de outubro de 2026, Ricardo Gondo, presidente da Nissan do Brasil há pouco mais de dois meses, afirmou que o descompasso entre vendas e produção de veículos no país é maior do que os números oficiais sugerem, e apontou problemas no avanço dos regimes CKD e SKD.

Presidente da Nissan do Brasil diz à Folha que regimes CKD e SKD escondem o real descompasso entre vendas e produção de veículos no país.

A declaração é curta, mas toca em um ponto sensível da política industrial brasileira. Segundo a Folha de S.Paulo, Gondo sustenta que a diferença entre o que se vende e o que se produz de veículos no Brasil é maior do que as estatísticas oficiais indicam, e associa isso ao crescimento dos regimes CKD e SKD.

O que são CKD e SKD

São modalidades de importação de veículos desmontados. No regime CKD (completely knocked down), o carro chega ao país praticamente em peças, para ser montado localmente. No SKD (semi knocked down), chega parcialmente montado, exigindo menos trabalho na linha final. Em ambos os casos, o veículo cruza a fronteira como conjunto de componentes, e não como automóvel pronto.

Por que isso mexe com as estatísticas

Um veículo montado em solo brasileiro a partir de kits importados tende a aparecer nas contas como produção nacional, ainda que a maior parte do valor adicionado tenha ocorrido fora do país. É esse o ponto levantado por Gondo: se parte do que se contabiliza como fabricação local for, na prática, montagem final de conjuntos importados, o indicador de produção embute um componente externo que a leitura simples do número não revela. A consequência lógica é que o abismo entre demanda interna e capacidade industrial instalada seria maior do que o retrato oficial.

O mecanismo econômico em disputa

Trata-se, no fundo, de uma discussão sobre conteúdo local e cadeia de fornecedores. A densidade industrial de um setor automotivo não se mede pela linha de montagem, e sim pela extensão da cadeia que a alimenta: estamparia, fundição, autopeças, eletrônica embarcada. Quanto mais o veículo chega pronto ou quase pronto, menor a demanda por esses elos locais, e menor o emprego industrial associado. Montar kits exige menos capital imobilizado e menos escala do que fabricar.

Há, porém, outro lado que convém não ignorar. Importar em partes pode ser uma resposta racional a custos de produção elevados, a escalas insuficientes ou à necessidade de testar modelos antes de comprometer investimento pesado. Restringir o mecanismo encarece o carro para o consumidor sem garantir que a produção migre para cá. Pedidos de proteção costumam vir embalados em diagnóstico técnico, e cabe ao leitor distinguir uma coisa da outra.

O que ainda não está respondido

O material disponível traz o diagnóstico de um executivo, não números que o quantifiquem. Não há, no conteúdo divulgado pela Folha, a magnitude do descompasso apontado, nem a proporção dos regimes CKD e SKD no total comercializado, nem resposta de outras montadoras ou do governo. A tese é relevante e merece verificação com dados, que é exatamente o que falta para transformá-la em conclusão.

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Por que isso importa

Se parte do que o Brasil contabiliza como produção automotiva for, na prática, montagem final de kits importados, o país pode estar superestimando sua densidade industrial no setor. Isso afeta decisões de política industrial, expectativas de emprego na cadeia de autopeças e o debate sobre proteção tarifária, com impacto direto sobre o preço que o consumidor paga pelo carro.


Fonte original: https://redir.folha.com.br/redir/online/mercado/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/negocios/2026/10/descompasso-entre-vendas-e-producao-e-maior-do-que-parece-no-brasil-diz-presidente-da-nissan.shtml