O sinal veio durante reunião à margem do encontro de ministros de Comércio do G20. Segundo nota conjunta do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o comissário europeu de Comércio e Segurança Econômica mencionou o resultado positivo de uma auditoria realizada recentemente no Brasil e afirmou que, concluídos os procedimentos burocráticos, os embarques de aves e mel poderão voltar em breve.
O que foi auditado, e por quê
A origem da restrição é regulatória, não comercial. A União Europeia retirou o Brasil da lista de países em conformidade com suas regras sobre o uso de determinados antimicrobianos na produção pecuária. Essas substâncias podem tratar infecções em animais, mas a legislação europeia proíbe seu uso para estimular crescimento ou elevar rendimento produtivo. A suspensão entrou em vigor em 3 de setembro e alcançou carne bovina, suína e de frango, além de mel, pescados, ovos e outros itens de origem animal.
Na avaliação divulgada nesta semana, segundo a Agência Brasil, a Comissão Europeia considerou satisfatório o sistema brasileiro nas cadeias de aves e mel e concluiu que o país reúne condições para cumprir as exigências. Os auditores verificaram, entre outros pontos, os controles que impedem o uso dos antimicrobianos como promotores de crescimento.
Sinalização não é liberação
Vale separar os estágios. A decisão final cabe ao Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações da Comissão Europeia, cuja reunião técnica está prevista para 20 e 21 de outubro. O Ministério da Agricultura pediu a inclusão do relatório da auditoria na pauta. Ou seja: há um parecer favorável e uma sinalização política, mas o acesso ao mercado só se restabelece quando o trâmite formal se encerrar.
Esse detalhe importa para quem precisa decidir hoje. Enquanto a liberação não sai, exportadores e frigoríficos convivem com incerteza sobre destino da produção, contratos e logística. Em mercados de proteína, barreiras sanitárias funcionam como um custo de acesso: quando o requisito é rastreabilidade e controle documentado, o diferencial competitivo deixa de ser apenas preço e passa a ser a capacidade de provar conformidade. Países com sistemas de controle auditáveis ganham vantagem; quem não os tem fica fora, por mais barato que produza.
A conta mais difícil é a da carne bovina
Aqui a assimetria é técnica. O governo brasileiro manifestou expectativa de obter tratamento acelerado também para a proteína bovina, mas as exigências são maiores: a comprovação do controle sanitário depende do acompanhamento de todo o ciclo de vida do animal, do nascimento ao abate, e esse processo de rastreabilidade pode levar até dois anos. Como a carne bovina responde por parcela relevante das vendas brasileiras de proteína animal ao bloco, a reabertura parcial resolve menos do que parece.
Na mesma reunião, os ministros trataram das restrições europeias ao aço. Segundo o governo brasileiro, o bloco revisa a distribuição de cotas siderúrgicas, o que poderá abrir espaço para o Brasil, com etapas adicionais previstas para 2027.
📊 Número do Dia
Até 2 anos — Prazo estimado para o processo de rastreabilidade do ciclo de vida do animal exigido na carne bovina, o que torna mais complexa a reversão da suspensão europeia iniciada em 3 de setembro
Por que isso importa
Uma restrição sanitária europeia pode fechar mercado inteiro de um dia para o outro, independentemente de preço ou competitividade. A sinalização favorável a aves e mel indica caminho de volta, mas a decisão ainda depende de comitê técnico em outubro, e a cadeia bovina, mais relevante nas vendas ao bloco, enfrenta exigência de rastreabilidade que pode levar até dois anos.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-09/uniao-europeia-sinaliza-retomada-de-compras-de-frango-e-mel-do-brasil
