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quinta-feira, 10 de setembro de 2026 Brasil

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Faraó dos Bitcoins admite manipulação de criptomoedas em depoimento

Em depoimento inédito à Justiça Federal, Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como 'Faraó dos Bitcoins', admitiu ter manipulado o mercado de criptomoedas ao atuar como 'baleia' — investidor com volume suficiente para influenciar preços. O esquema da GAS Consultoria teria movimentado R$ 38 bilhões e deixado 77 mil vítimas cobrando R$ 3 bilhões na Justiça.

Faraó dos Bitcoins admite manipulação de mercado em depoimento. Esquema movimentou R$ 38 bi e deixou 77 mil vítimas cobrando R$ 3 bi na Justiça.

O caso do ‘Faraó dos Bitcoins’ expõe uma das maiores fraudes financeiras da história recente do Brasil e revela práticas de manipulação de mercado que afetam todo o ecossistema de criptomoedas no país. Segundo reportagem do Fantástico, Glaidson Acácio dos Santos confessou em juízo que operava como uma ‘baleia’ — termo usado para investidores que possuem quantidade tão grande de ativos digitais que conseguem influenciar os preços de mercado, como se fossem grandes tubarões em um aquário pequeno.

O esquema funcionava de forma aparentemente simples: a GAS Consultoria prometia lucros acima da média do mercado em investimentos em criptomoedas (moedas digitais como Bitcoin, que existem apenas na internet e não são controladas por governos), atraindo desde empresários e jogadores de futebol até pessoas de menor poder aquisitivo que faziam empréstimos para investir. Segundo o Fantástico, Glaidson explicou que coordenava com outras ‘baleias’ para manipular preços: apostavam na queda de determinadas criptomoedas, faziam o preço despencar e lucravam com isso — uma prática ilegal conhecida como manipulação de mercado.

A dimensão do esquema

Os números impressionam: R$ 38 bilhões movimentados, 77 mil credores cobrando ressarcimento e uma operação que usava até helicópteros para transportar dinheiro em espécie de clientes até São Paulo, de onde os valores eram convertidos em criptomoedas, conforme relatou o próprio Glaidson. A título de comparação, o escândalo da Madoff nos Estados Unidos, considerado a maior fraude financeira da história americana, movimentou cerca de US$ 65 bilhões (aproximadamente R$ 325 bilhões em valores atuais) ao longo de décadas — o caso brasileiro, embora menor, concentrou um volume gigantesco em poucos anos.

A esposa de Glaidson, Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, também prestou depoimento. Ela nega participação na gestão de clientes e afirma que sua função era apenas estudar o mercado de criptomoedas para multiplicar os recursos. Após a prisão do marido em 2021, Mirelis fugiu para os Estados Unidos, onde foi identificada pelo Ministério Público Federal como responsável por sacar 4,5 mil bitcoins (equivalentes a R$ 1 bilhão na época). Duas semanas depois, ela anunciou nas redes sociais a abertura de uma nova plataforma de investimentos, a GMX.

O mistério da carteira digital

Um dos pontos centrais do processo ainda não foi resolvido: quanto dinheiro Glaidson realmente possui em sua carteira de criptomoedas. As moedas digitais podem ser guardadas em dispositivos físicos sem conexão com a internet, chamados de ‘cold wallets’ (carteiras frias), que funcionam como um cofre digital acessível apenas por senhas que só o dono conhece. A carteira de Glaidson está guardada em um cofre da Polícia Federal, mas ele se recusa a revelar o valor exato, alegando risco à sua integridade física. Em depoimento, afirmou ter recursos suficientes para pagar os R$ 3 bilhões cobrados pelos credores, mas disse não lembrar a senha de cabeça.

Segundo dados públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Brasil registrou aumento de 140% em denúncias de pirâmides financeiras envolvendo criptomoedas entre 2020 e 2023. O caso da GAS Consultoria é emblemático porque combina a promessa de lucros rápidos — típica de esquemas Ponzi (pirâmides que pagam investidores antigos com dinheiro de novos entrantes) — com a complexidade técnica e a falta de regulação do mercado de criptoativos.

Por que isso importa

Para o investidor brasileiro, o caso serve de alerta sobre os riscos de promessas de retornos muito acima da média do mercado. Quando alguém promete lucros mensais de 10% (como fazia a GMX de Mirelis), é preciso desconfiar: a taxa Selic (o juro básico da economia brasileira, usado como referência para investimentos seguros) está em torno de 10,5% ao ano — não ao mês. Para o mercado de criptomoedas como um todo, o caso reforça a urgência de regulação mais clara. O Congresso Nacional discute um marco regulatório para ativos digitais, mas casos como este mostram que a ausência de fiscalização efetiva cria espaço para fraudes de grande escala. Se condenados, Glaidson, Mirelis e mais 15 acusados podem pegar mais de 40 anos de prisão.

📊 Número do Dia

R$ 38 bilhões , Volume movimentado pelo esquema da GAS Consultoria, que prometia lucros acima do mercado em criptomoedas e deixou 77 mil vítimas

Por que isso importa

O caso expõe a fragilidade da regulação do mercado de criptomoedas no Brasil e serve de alerta para investidores: promessas de retornos muito acima da média (como 10% ao mês) são sinais claros de possível fraude. Com 77 mil credores cobrando R$ 3 bilhões na Justiça, o esquema do ‘Faraó dos Bitcoins’ é uma das maiores pirâmides financeiras da história recente do país e reforça a urgência de marcos regulatórios mais claros para proteger investidores e punir manipuladores de mercado.


Fonte original: https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/em-depoimento-farao-dos-bitcoins-diz-ser-baleia-e-admite-ter-manipulado-mercado-das-criptomoedas.ghtml