A Kohler decidiu concentrar sua atuação no Brasil exclusivamente no segmento de luxo, abandonando a produção de itens standard (produtos básicos, de menor valor agregado). A fábrica de Andradas, que antes da pandemia empregava cerca de mil pessoas e produzia 1 milhão de peças por ano, não se encaixava mais na nova estratégia global da empresa. Segundo Roberto Riolobos Sanchez, diretor da Kohler para a América Latina, o mercado de produtos básicos enfrenta concorrência muito forte baseada em custos, com itens comercializados quase como commodities — ou seja, produtos sem diferenciação, onde o preço é o principal fator de decisão.
A mudança não aconteceu apenas no Brasil. A empresa transferiu parte da produção para o México, próximo à fronteira com os Estados Unidos, seguindo uma tendência chamada “nearshoring” (aproximar a fabricação do consumidor final). Uma das novas fábricas mexicanas tem capacidade para produzir sozinha 7 milhões de itens por ano — sete vezes mais que a unidade brasileira no auge. A título de comparação, essa estratégia de nearshoring tem sido adotada por diversas multinacionais desde a pandemia, quando as cadeias globais de suprimento foram interrompidas e as empresas perceberam os riscos de depender de fornecedores distantes.
As tarifas de exportação para os Estados Unidos também pesaram na decisão. Parte da produção de Andradas era destinada ao mercado norte-americano, e as barreiras comerciais tornaram essa operação menos viável. Allan di Bartolomeo, diretor jurídico da Kohler para a América Latina, afirmou que as tarifas representaram mais um obstáculo para manter a fábrica funcionando. É como se o custo de enviar produtos para o principal cliente ficasse tão alto que não compensasse mais produzir aqui.
O que muda para o consumidor brasileiro
Apesar do fechamento da fábrica, a Kohler não deixará o mercado brasileiro — mas passará a atender apenas clientes de alto poder aquisitivo. A empresa pretende expandir sua rede de Kohler Signature Stores (KSS), showrooms voltados ao público premium. Atualmente são 36 lojas no país, com previsão de abrir mais quatro ainda em 2025 e outras dez até 2027. Ao mesmo tempo, a companhia reduz sua presença em home centers (lojas de materiais de construção como Leroy Merlin e Telhanorte), onde os produtos básicos têm maior participação.
A estratégia inclui trazer outras marcas de luxo do portfólio global da Kohler para o Brasil nos próximos 12 meses. A empresa também pretende ampliar vendas diretas para grandes projetos, como hotéis de luxo e empreendimentos residenciais de alto padrão. Segundo Sanchez, há espaço para crescer nesse mercado porque alguns imóveis considerados de alto padrão ainda não utilizam acabamentos equivalentes em todas as áreas — especialmente nos banheiros.
Um setor em dificuldade
O fechamento da Kohler acontece em um momento difícil para o setor de louças e metais sanitários no Brasil. A Dexco, maior fabricante do país e dona da marca Deca, fechou unidades em João Pessoa (PB) em 2023 e em Queimados (RJ) em 2025, também concentrando produção e tentando ampliar presença no mercado premium. O setor enfrenta queda na demanda e margens de lucro mais apertadas — ou seja, a diferença entre o custo de produção e o preço de venda está menor, dificultando a rentabilidade.
A Kohler ainda não definiu o destino da fábrica de Andradas. Uma das possibilidades é vendê-la para um concorrente. Os funcionários afetados terão um mês de licença remunerada enquanto a empresa negocia com os sindicatos. A companhia investiu mais de R$ 200 milhões na unidade desde 2014, mas avalia que o futuro está em produtos de maior valor agregado, não em volume de produção.
📊 Número do Dia
7 milhões , Capacidade anual de produção de uma única fábrica da Kohler no México — sete vezes maior que a unidade brasileira fechada
Por que isso importa
O fechamento da Kohler ilustra uma tendência mais ampla na indústria brasileira: empresas multinacionais estão transferindo produção para países mais próximos de seus principais mercados e concentrando operações locais em segmentos de maior valor. Para o consumidor de classe média, isso significa menos opções de produtos nacionais a preços acessíveis. Para trabalhadores da indústria, representa perda de empregos formais em regiões do interior. E para o país, evidencia a dificuldade de competir em setores onde o custo é o principal diferencial — especialmente diante de barreiras comerciais e da concorrência de países com produção em escala maior.
Fonte original: https://atarde.com.br/economia/gigante-de-loucas-encerra-marca-e-fecha-unica-fabrica-no-brasil-1401057


