A mobilização do setor terciário busca convencer os senadores de que uma mudança constitucional dessa dimensão não deve ser deliberada em meio ao período eleitoral e em um cenário de fragilidade econômica. Segundo a CNC, mais de 90% dos trabalhadores do comércio, serviços e turismo atuam atualmente no regime 6×1. A entidade argumenta que o momento é inadequado para uma alteração tão profunda, dado o ambiente de juros elevados, crédito restrito e alto endividamento das famílias brasileiras.
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, afirmou que a entidade não se opõe ao debate sobre melhores condições de trabalho, mas defende cautela. “Votar uma alteração constitucional dessa dimensão de forma apressada e às vésperas de um processo eleitoral coloca em risco a estabilidade de milhões de micro e pequenas empresas e a manutenção dos empregos formais”, disse Tadros. A confederação sustenta que eventuais mudanças na jornada deveriam ocorrer por meio de convenções e acordos coletivos — mecanismo previsto na legislação trabalhista desde a reforma de 2017 — permitindo que empregadores e trabalhadores negociem condições adequadas às diferentes realidades regionais.
Na avaliação da CNC, uma redução compulsória da jornada elevaria os custos operacionais das empresas, o que poderia resultar em repasse de preços ao consumidor, diminuição de vagas formais e crescimento da informalidade (quando trabalhadores atuam sem carteira assinada e proteções legais). As entidades também citam o fim da chamada “Taxa das Blusinhas” — tributo sobre produtos importados de baixo valor — como um fator que amplia a concorrência com produtos estrangeiros e pressiona ainda mais o varejo nacional.
A título de comparação, países europeus como França e Alemanha adotaram reduções graduais da jornada de trabalho ao longo de décadas, com amplo debate social e compensações negociadas entre sindicatos e empresas. No Brasil, o setor terciário representa cerca de 70% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo que o país produz), segundo dados do IBGE, tornando qualquer mudança nas regras trabalhistas desse segmento particularmente sensível para a economia como um todo.
No Rio de Janeiro, o presidente da Fecomércio RJ, Antonio Florencio de Queiroz Junior, destacou que os segmentos de comércio, serviços e turismo dependem de funcionamento em horários estendidos e aos fins de semana. “Precisamos ter cuidado para que uma medida que busca melhorar as condições de trabalho não termine provocando a redução de postos de trabalho”, afirmou. A campanha da CNC usa o lema “A conta já está alta demais. Mudança das regras do trabalho às vésperas da eleição? Agora não”.
📊 Número do Dia
90% , Percentual de trabalhadores do comércio, serviços e turismo que atuam no regime 6×1, segundo a CNC
Por que isso importa
Para o trabalhador, a discussão envolve a possibilidade de mais dias de descanso, mas também o risco de redução de vagas formais caso empresas não consigam absorver o aumento de custos. Para o empresário, especialmente micro e pequenos negócios, a mudança pode significar necessidade de contratar mais funcionários ou reduzir horários de atendimento, impactando a competitividade. Para o consumidor, há o risco de repasse de custos aos preços, num momento em que a inflação e os juros já pressionam o orçamento familiar. O debate também expõe a tensão entre avanços sociais e viabilidade econômica em um país com alta informalidade.


