Curiosamente, a mesma semana que trouxe o primeiro crescimento das exportações brasileiras aos Estados Unidos em 11 meses também elevou em 10% a conta de luz em São Paulo.
A Leitura da Semana
As exportações brasileiras aos Estados Unidos cresceram 3,7% em junho, interrompendo uma sequência de quedas que durava desde agosto de 2025, logo após Donald Trump impor uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros. O avanço pode parecer modesto, mas representa uma virada importante: o Brasil conseguiu, pela primeira vez em quase um ano, expandir suas vendas ao maior mercado consumidor do planeta mesmo sob tarifas punitivas. A balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 9,8 bilhões em junho, alta de 66,6% em relação ao ano anterior, impulsionada por um crescimento de quase 25% nas exportações totais. O Ministério da Economia já elevou a projeção de superávit comercial para US$ 90 bilhões em 2026.
Enquanto isso, a Agência Nacional de Energia Elétrica leiloou quatro novos lotes de transmissão de energia, e a conta de luz em São Paulo ficou 10% mais cara. A coincidência ilustra um paradoxo brasileiro: o país exporta cada vez mais commodities e produtos de valor agregado, mas ainda não conseguiu resolver gargalos básicos de infraestrutura energética. A China, por sua vez, segue criando mecanismos financeiros na África para reduzir sua dependência do dólar, um movimento que reforça a tendência de desdolarização do comércio global e que pode, no médio prazo, afetar a forma como o Brasil negocia com seus parceiros comerciais.
O debate sobre terras raras ganhou destaque com o lançamento de um livro que questiona se o Brasil deve exportar esses minerais como matéria-prima bruta ou desenvolver uma indústria nacional de transformação. A pergunta não é nova, mas ganha urgência: o país detém reservas significativas de elementos essenciais para tecnologias de ponta, da eletrificação de veículos aos semicondutores, mas ainda não definiu uma estratégia clara de agregação de valor. Enquanto isso, a Alimentation Couche-Tard, gigante canadense do varejo de combustíveis, negocia a compra de participação na Ipiranga, sinalizando que o interesse estrangeiro pelo mercado brasileiro de energia e logística segue robusto.
Perspectiva & Olhar da Redação
O Brasil está crescendo, exportando mais e atraindo investimentos estrangeiros. O Ibovespa voltou aos 174 mil pontos, a balança comercial acumula superávits recordes e até as exportações aos Estados Unidos, sob tarifas de 50%, voltaram a crescer. Mas o país ainda não resolveu a equação básica: como transformar abundância de recursos naturais em desenvolvimento sustentável sem que a conta de luz suba 10% enquanto se leiloa transmissão de energia?
A questão das terras raras resume bem o dilema. O Brasil pode continuar exportando matéria-prima e importando tecnologia, ou pode investir em industrialização e capturar o valor agregado que hoje fica em outros países. A escolha não é técnica, é estratégica. E enquanto a decisão não vem, a China avança na desdolarização do comércio africano, os canadenses compram postos de gasolina brasileiros e Trump exibe notas de US$ 100 com sua assinatura presidencial inédita.
O crescimento está aí, os números comprovam. A infraestrutura energética, nem tanto. O Brasil exporta cada vez mais, mas ainda não decidiu o que quer ser quando crescer. Afinal, de que adianta bater recordes de exportação se a conta de luz continua subindo mais rápido que o PIB?
Vitor Ribeiro
Correio Capital


