A ajuda internacional dos países ricos para nações pobres sofreu em 2025 o maior corte da história: 23,1%, segundo estudo do Brics Policy Center da PUC-Rio. O volume caiu de US$ 226,7 bilhões em 2024 para US$ 174,3 bilhões (cerca de R$ 900 bilhões) no ano passado — uma redução de US$ 52,4 bilhões em termos reais, já descontada a inflação. Esses recursos fazem parte da chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), dinheiro público que governos enviam para promover o desenvolvimento econômico em outros países, seja diretamente (ajuda bilateral) ou por meio de instituições como ONU e Banco Mundial (ajuda multilateral).
Os Estados Unidos lideram o corte: sozinhos, reduziram a ajuda em mais da metade (56,9%) e respondem por 75% de toda a diminuição global. A mudança coincide com o início do novo mandato de Donald Trump, que tem adotado postura contrária ao multilateralismo e retirou os EUA de 66 organizações internacionais. Os cinco maiores doadores — EUA, Alemanha, França, Reino Unido e Japão — representam 95,7% da redução total. Pela primeira vez, todos esses países cortaram ajuda por dois anos seguidos: Alemanha (-17,4%), França (-10,9%), Reino Unido (-10,8%) e Japão (-5,6%).
Defesa e energia no lugar da ajuda
O estudo aponta que os recursos estão sendo redirecionados para defesa e segurança energética. Nos EUA, os gastos militares subiram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões. Na União Europeia, o salto foi de 11%, chegando a 381 bilhões de euros. O investimento total em energia na UE quase dobrou na última década: passou de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025, acelerado pelo choque de segurança energética após a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022.
A título de comparação, enquanto países desenvolvidos cortam ajuda, a China tem expandido sua influência em nações em desenvolvimento por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, com empréstimos e investimentos em infraestrutura — uma estratégia que não entra nas estatísticas da OCDE, mas que redefine o mapa da cooperação internacional.
Ucrânia concentra recursos, África perde
A Ucrânia tornou-se o maior recebedor individual de ajuda da história, com US$ 44,9 bilhões em 2025 — mais que os US$ 28,1 bilhões destinados aos 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos. Mesmo com os EUA cortando 91% da ajuda ao país, 23 nações europeias compensaram a redução; só instituições da UE aumentaram os envios em 65,2%. É uma “retração seletiva”: o financiamento ao sistema ONU caiu 27%, mas o apoio ao Banco Mundial subiu 6,4%.
Quem mais sofre é a África Subsaariana, que viu os recursos caírem 23% em 2025, para US$ 29,2 bilhões, com projeção de nova queda de 11,6% em 2026. Segundo a Oxfam, os cortes de 2025 podem causar 695 mil mortes em excesso; se a tendência continuar, seriam 9,4 milhões de mortes até 2030. É como se, ao fechar a torneira de recursos para saúde, educação e alimentação, os países ricos estivessem condenando milhões de pessoas à falta de acesso a serviços básicos.
📊 Número do Dia
23,1% — Maior queda da ajuda internacional de países ricos em 2025, reduzindo o volume para US$ 174,3 bilhões
Por que isso importa
Para o Brasil, que não faz parte da OCDE mas participa dos Brics, a retração da ajuda internacional redefine o cenário geopolítico. O país pode ganhar protagonismo como doador regional e articulador de cooperação Sul-Sul, especialmente após sediar a COP30 em Belém, onde se discutiu a necessidade de US$ 1,3 trilhão para financiamento climático — valor considerado inalcançável justamente pela escassez de recursos dos países ricos. Para empresas brasileiras, a redução de ajuda em África e América Latina pode abrir espaço para investimentos privados em infraestrutura e serviços básicos, preenchendo o vácuo deixado pelos doadores tradicionais.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-08/ajuda-internacional-sofre-corte-de-231-em-2025-o-maior-da-historia


