A nova rodada de tarifas americanas será menos agressiva para o Brasil do que se temia inicialmente. Segundo o economista João Carmo, da 4Intelligence, 62% da pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos ficou de fora da taxa de 25% anunciada pelo governo Trump. Esse percentual é maior que os 56,3% originalmente recomendados pelo Escritório do Representante do Comércio dos EUA (USTR, o órgão americano responsável por negociar acordos comerciais e investigar práticas de outros países).
Em valores concretos, isso significa que US$ 23,3 bilhões dos US$ 37,7 bilhões exportados pelo Brasil aos EUA em 2025 não serão afetados pela nova tarifa. Produtos estratégicos como laranja, suco de laranja, carne bovina, café, petróleo, gás natural e componentes aeroespaciais foram poupados. O maior beneficiado pela ampliação das isenções foi o ferro fundido (matéria-prima usada na indústria siderúrgica), além de pescados como lagosta e tilápias.
A decisão final representa uma vitória parcial para o Brasil nas negociações com Washington. A Casa Branca confirmou que segue em diálogo com o governo brasileiro, sinalizando que a lista de exceções pode ainda ser ampliada. A tarifa de 25% foi justificada por uma investigação da Seção 301, que acusou o Brasil de práticas comerciais “desleais” — incluindo o uso do Pix (o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro), desmatamento ilegal e barreiras ao etanol americano.
O impacto real na economia
Apesar do alívio geral, alguns setores industriais ainda enfrentarão dificuldades. A consultoria Buysidebrazil calcula que apenas 31% da pauta exportadora brasileira ficará sujeita ao impacto adicional de 25%, considerando que produtos como aço, alumínio e veículos já sofrem tarifas setoriais anteriores. A tarifa média ponderada sobre as exportações brasileiras aos EUA deve chegar a 24,1%.
Para entender melhor: imagine que o Brasil vende 100 produtos diferentes aos Estados Unidos. Desses, 62 não pagarão a nova taxa, mas 38 ainda serão taxados — e alguns deles já pagavam outras tarifas antes. O resultado é que setores como máquinas, equipamentos e produtos manufaturados (bens industrializados) serão os mais prejudicados, segundo Andrea Damico, da Buysidebrazil.
A título de comparação, a China — principal alvo das guerras comerciais de Trump — enfrenta tarifas médias superiores a 60% sobre diversos produtos. O Brasil, portanto, está em situação relativamente mais favorável, embora longe do cenário ideal de livre comércio. A diferença é que a China consegue redirecionar suas exportações para outros mercados com mais facilidade, enquanto setores brasileiros como máquinas e equipamentos têm dificuldade em encontrar compradores alternativos.
📊 Número do Dia
62% , das exportações brasileiras aos EUA ficaram fora da nova tarifa de 25%
Por que isso importa
Para o cidadão, o impacto macroeconômico será limitado — a inflação e o câmbio não devem sofrer grandes alterações. Para empresas dos setores de máquinas, equipamentos e manufaturados, porém, a notícia é ruim: esses produtos enfrentarão dificuldade para competir no mercado americano e terão que buscar novos compradores, o que pode resultar em demissões e redução de investimentos. Para o investidor, a mensagem é de alívio moderado: o Brasil evitou o pior cenário, mas a incerteza comercial com os EUA permanece como risco.


