As fábricas de motocicletas instaladas no Polo Industrial de Manaus produziram mais de 1 milhão de unidades nos primeiros seis meses de 2026 — o maior volume para o período em 15 anos. Segundo a Abraciclo, a associação que representa os fabricantes, o resultado evidencia a capacidade da indústria em responder ao crescimento da demanda, impulsionada principalmente pelo aumento de trabalhadores de aplicativos de entrega.
O crescimento de 6,3% na comparação com o primeiro semestre de 2025 reflete uma tendência que vem se consolidando desde a pandemia: a motocicleta se tornou ferramenta de trabalho essencial para milhões de brasileiros que dependem de aplicativos como iFood, Rappi e Uber Eats para ganhar a vida. É como se a moto tivesse deixado de ser apenas um meio de transporte e se transformado em um “escritório sobre duas rodas” para uma parcela crescente da população.
Crédito facilitado alimenta a demanda
A indústria projeta produzir 2,07 milhões de unidades até o fim de 2026, e aposta no Move Brasil — uma linha de crédito específica para trabalhadores de aplicativos — como principal motor desse crescimento. O programa, que deveria ter começado em julho, foi adiado por duas semanas devido a ajustes nos sistemas, segundo Marcos Bento, presidente da Abraciclo. A iniciativa funciona como um financiamento facilitado: trabalhadores que comprovem renda através de aplicativos terão acesso a condições especiais para comprar motos novas.
Os modelos mais baratos dominam o mercado. As motocicletas de baixa cilindrada (até 300 cc, que consomem menos combustível e custam menos) representaram 78,2% da produção, com 831.213 unidades. Para comparação, na Índia — maior mercado de motos do mundo — os modelos de baixa cilindrada também dominam, mas com volumes muito superiores: apenas a Hero MotoCorp, maior fabricante indiana, produziu mais de 5 milhões de unidades em 2025.
Desafios logísticos no horizonte
Apesar do otimismo, a indústria enfrenta desafios. Em junho, a produção caiu 15,1% em relação ao mesmo mês de 2025, resultado de férias coletivas programadas pelas fabricantes. Mais preocupante é a possibilidade de um El Niño forte, que pode secar os rios da Amazônia e comprometer a logística do Polo de Manaus — toda a produção e o recebimento de insumos dependem do transporte fluvial pelo Rio Amazonas.
Bento afirmou que a indústria “aprendeu” com as secas dos últimos dois anos e agora se precavê melhor, mas não detalhou quais medidas concretas foram adotadas. A vulnerabilidade climática é um lembrete de que mesmo setores em expansão não estão imunes aos riscos ambientais que se intensificam no Brasil.
📊 Número do Dia
1.063.397 , motocicletas produzidas no primeiro semestre de 2026, o maior volume para o período em 15 anos
Por que isso importa
Para o trabalhador de aplicativo, a produção recorde significa maior oferta de motos e potencialmente preços mais competitivos, facilitando a aquisição da principal ferramenta de trabalho. Para a economia, o crescimento do setor reflete a expansão da economia de bicos — uma transformação estrutural do mercado de trabalho brasileiro que gera renda, mas também levanta questões sobre precarização e proteção social. Para investidores, o setor de duas rodas se consolida como aposta de longo prazo, sustentada por uma demanda que vai além do lazer e se tornou necessidade econômica para milhões.
Fonte original: https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/07/numero-de-motocicletas-fabricadas-no-primeiro-semestre-e-o-maior-em-15-anos.ghtml


