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segunda-feira, 27 de julho de 2026 Brasil

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Carta da Redação : A Semana da Economia

Enquanto o mundo redesenha cadeias globais, o Brasil administra filas do INSS e planta lúpulo. A análise semanal do Correio Capital sobre prioridades econômicas.

Homem de boné examinando flores de lúpulo em plantação comercial organizada, agronegócio agricultura
Produtor rural examina qualidade do lúpulo em plantação comercial brasileira.

Enquanto o Pentágono redesenha cadeias globais de terras raras e a Arábia Saudita tokeniza US$ 12,5 bilhões em imóveis, o Brasil comemora a redução da fila do INSS.

A Leitura da Semana

A fila do INSS caiu pela segunda vez consecutiva, mas especialistas alertam: a queda é artificial. Segundo dados oficiais divulgados esta semana, o número de requerimentos pendentes diminuiu, mas a redução não reflete maior eficiência do sistema. Trata-se de reclassificação contábil, não de atendimento real. Para milhões de brasileiros que aguardam aposentadorias e pensões, a diferença entre uma fila menor no papel e um benefício na conta é, convenhamos, relevante. O episódio ilustra um padrão: a gestão pública brasileira prefere administrar percepções a resolver problemas estruturais.

O Rio de Janeiro fechou acordo para reduzir o preço do gás natural, envolvendo Petrobras e Naturgy. A parceria promete tornar o insumo mais barato para motoristas, indústrias e consumidores residenciais. É uma boa notícia setorial, mas revela algo maior: o Brasil ainda depende de acordos pontuais, negociados estado por estado, para resolver questões que deveriam ser políticas nacionais de energia. Enquanto isso, o Pentágono anuncia plano para reduzir a dependência americana de terras raras chinesas, e o Brasil aparece como potencial fornecedor. Curiosamente, somos mais estratégicos para Washington do que para Brasília.

Pesquisadores brasileiros trabalham para reposicionar o país no mercado de lúpulo, insumo essencial para cerveja. Hoje, o Brasil produz 81 toneladas anuais e importa 7 mil toneladas, um mercado de R$ 878 milhões. O projeto é tecnicamente sólido e economicamente promissor. Mas chama atenção que, em plena corrida global por semicondutores, baterias e minerais críticos, nossa aposta de inovação esteja concentrada em cerveja artesanal. Não há nada de errado com lúpulo. Há algo de revelador sobre prioridades.

Perspectiva & Olhar da Redação

Os três episódios desta semana têm algo em comum: são iniciativas corretas, bem-intencionadas, tecnicamente defensáveis. E, juntas, revelam um país que resolve o urgente enquanto o importante acontece em outro lugar. A fila do INSS é gerenciada, não resolvida. O gás fica mais barato no Rio, mas não há política energética nacional. O lúpulo avança, mas terras raras seguem no subsolo, esperando que alguém as transforme em estratégia.

Enquanto isso, o mundo acelera. A Arábia Saudita tokeniza bilhões em ativos reais. Os Estados Unidos redesenham cadeias de suprimento para conter a China. A Coreia do Sul negocia com sindicatos para evitar greve na Samsung, porque sabe que cada dia parado custa posição global. O Brasil, por sua vez, celebra pequenas vitórias administrativas e planta lúpulo. Não é pouco. Mas também não é suficiente para um país que quer ser levado a sério no século XXI.

A questão não é se o Brasil tem capacidade técnica ou recursos naturais. Tem ambos, em abundância. A questão é saber se continuaremos resolvendo problemas de 2015 enquanto o resto do mundo desenha 2035. Ou se, em algum momento, alguém vai olhar para o mapa das terras raras, para o potencial energético, para a base industrial ociosa, e perguntar: por que estamos jogando na segunda divisão?

Afinal, quando o Brasil vai parar de administrar crises e começar a construir vantagens?

Vitor Ribeiro
Correio Capital