Enquanto o Pentágono redesenha cadeias globais de terras raras e a Arábia Saudita tokeniza US$ 12,5 bilhões em imóveis, o Brasil comemora a redução da fila do INSS.
A Leitura da Semana
A fila do INSS caiu pela segunda vez consecutiva, mas especialistas alertam: a queda é artificial. Segundo dados oficiais divulgados esta semana, o número de requerimentos pendentes diminuiu, mas a redução não reflete maior eficiência do sistema. Trata-se de reclassificação contábil, não de atendimento real. Para milhões de brasileiros que aguardam aposentadorias e pensões, a diferença entre uma fila menor no papel e um benefício na conta é, convenhamos, relevante. O episódio ilustra um padrão: a gestão pública brasileira prefere administrar percepções a resolver problemas estruturais.
O Rio de Janeiro fechou acordo para reduzir o preço do gás natural, envolvendo Petrobras e Naturgy. A parceria promete tornar o insumo mais barato para motoristas, indústrias e consumidores residenciais. É uma boa notícia setorial, mas revela algo maior: o Brasil ainda depende de acordos pontuais, negociados estado por estado, para resolver questões que deveriam ser políticas nacionais de energia. Enquanto isso, o Pentágono anuncia plano para reduzir a dependência americana de terras raras chinesas, e o Brasil aparece como potencial fornecedor. Curiosamente, somos mais estratégicos para Washington do que para Brasília.
Pesquisadores brasileiros trabalham para reposicionar o país no mercado de lúpulo, insumo essencial para cerveja. Hoje, o Brasil produz 81 toneladas anuais e importa 7 mil toneladas, um mercado de R$ 878 milhões. O projeto é tecnicamente sólido e economicamente promissor. Mas chama atenção que, em plena corrida global por semicondutores, baterias e minerais críticos, nossa aposta de inovação esteja concentrada em cerveja artesanal. Não há nada de errado com lúpulo. Há algo de revelador sobre prioridades.
Perspectiva & Olhar da Redação
Os três episódios desta semana têm algo em comum: são iniciativas corretas, bem-intencionadas, tecnicamente defensáveis. E, juntas, revelam um país que resolve o urgente enquanto o importante acontece em outro lugar. A fila do INSS é gerenciada, não resolvida. O gás fica mais barato no Rio, mas não há política energética nacional. O lúpulo avança, mas terras raras seguem no subsolo, esperando que alguém as transforme em estratégia.
Enquanto isso, o mundo acelera. A Arábia Saudita tokeniza bilhões em ativos reais. Os Estados Unidos redesenham cadeias de suprimento para conter a China. A Coreia do Sul negocia com sindicatos para evitar greve na Samsung, porque sabe que cada dia parado custa posição global. O Brasil, por sua vez, celebra pequenas vitórias administrativas e planta lúpulo. Não é pouco. Mas também não é suficiente para um país que quer ser levado a sério no século XXI.
A questão não é se o Brasil tem capacidade técnica ou recursos naturais. Tem ambos, em abundância. A questão é saber se continuaremos resolvendo problemas de 2015 enquanto o resto do mundo desenha 2035. Ou se, em algum momento, alguém vai olhar para o mapa das terras raras, para o potencial energético, para a base industrial ociosa, e perguntar: por que estamos jogando na segunda divisão?
Afinal, quando o Brasil vai parar de administrar crises e começar a construir vantagens?
Vitor Ribeiro
Correio Capital












