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Brasil quer produzir lúpulo e reduzir importações

Projeto da Coppe/UFRJ quer adaptar cultivo de lúpulo ao clima tropical brasileiro e reduzir dependência de importações em mercado de R$ 878 milhões anuais.
Pesquisadores da Coppe/UFRJ lideram projeto para transformar o Brasil em referência na produção de lúpulo em clima tropical. O país hoje produz apenas 1,11% do que consome, importando a maior parte da matéria-prima essencial para cerveja.

O Brasil produz apenas 81 toneladas de lúpulo por ano, mas consome cerca de 7 mil toneladas — uma dependência quase total de importações em um mercado estimado em R$ 878 milhões anuais. Segundo a Agência Brasil, pesquisadores do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe/UFRJ) estão desenvolvendo um projeto para mudar esse cenário e posicionar o país como referência global na produção da planta em regiões de clima tropical.

O lúpulo é a planta cujas flores (chamadas de cones) dão à cerveja seu amargor, aroma e estabilidade. Além da indústria cervejeira, os compostos do lúpulo têm aplicação em alimentos, cosméticos e até medicamentos. Atualmente, a maior parte do lúpulo consumido no Brasil vem de regiões de clima frio como Alemanha e Estados Unidos, onde as condições de temperatura e luz permitem apenas uma safra por ano.

A vantagem tropical

O projeto da Coppe, desenvolvido no Centro Avançado em Sustentabilidade, Ecossistemas Locais e Governança (Casulo), quer replicar o que o Brasil já fez com a soja e o trigo: adaptar uma cultura estrangeira ao ambiente nacional e alcançar escala competitiva. Com manejo adequado e tecnologias como suplementação luminosa (iluminação artificial que simula condições ideais), é possível alcançar até 2,5 safras anuais no Brasil — mais do que o dobro da produtividade dos países tradicionais.

“Estamos falando de estruturar uma nova cadeia produtiva no país, integrando desde o cultivo com agricultura de precisão até o processamento industrial e o controle de qualidade em laboratório próprio”, explica a coordenadora Amanda Xavier, do Programa de Engenharia de Produção da Coppe, segundo a Agência Brasil. A iniciativa inclui a produção de extratos de lúpulo — insumos de alto valor obtidos por tecnologia avançada de extração com CO₂ — capazes de atender diferentes indústrias com padronização e rastreabilidade.

Comparação internacional

Em 2024, a produção mundial de lúpulo foi de cerca de 114 mil toneladas, segundo dados do setor. A Alemanha, maior produtor europeu, colhe aproximadamente 45 mil toneladas anuais, enquanto os Estados Unidos respondem por cerca de 50 mil toneladas. O Brasil, com suas 81 toneladas, representa uma fração ínfima do mercado global — mas o potencial de crescimento é enorme, especialmente considerando que o país consome 7 mil toneladas por ano.

A Coppe mantém parceria com a Associação Brasileira do Lúpulo (Aprolúpulo), que resultou na publicação do Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, em março de 2026. O documento orienta pesquisas, políticas públicas e investimentos, indicando regiões prioritárias para cultivo e infraestrutura. A escolha da localização pode transformar territórios em referências nacionais, concentrando conhecimento técnico, inovação e articulação produtiva — como ocorreu historicamente com outras cadeias agrícolas brasileiras.

Da importação à exportação

Hoje, o Brasil importa praticamente todo o lúpulo que consome, gastando centenas de milhões de reais por ano. O projeto da Coppe busca reverter essa dependência e, no médio prazo, posicionar o país como exportador. “Com agricultura de precisão e controle laboratorial, podemos oferecer extratos padronizados que atendam tanto a cervejarias artesanais quanto à indústria farmacêutica”, afirma Amanda Xavier.

A região selecionada para sediar o projeto receberá investimentos em infraestrutura, capacitação técnica e pesquisa aplicada — fatores que historicamente transformam territórios em polos de desenvolvimento regional. Trata-se de uma oportunidade concreta de geração de empregos qualificados, atração de novos negócios e fortalecimento da indústria nacional.

📊 Número do Dia

1,11% — Percentual da demanda interna de lúpulo que o Brasil consegue produzir — o restante é importado

Por que isso importa

Para o cidadão, o projeto pode baratear a cerveja nacional ao reduzir a dependência de importações. Para empresas, abre oportunidades em uma cadeia produtiva nova, com potencial de exportação e geração de empregos qualificados. Para o país, representa a chance de dominar uma tecnologia estratégica e transformar uma desvantagem (clima tropical) em vantagem competitiva, como já fez com outras culturas agrícolas.


Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-05/coppe-lidera-projeto-que-pode-reposicionar-pais-no-mercado-de-lupulo

Foto de Vitor Ribeiro

Vitor Ribeiro

Jornalista especializado em comércio internacional e economia global. Cobre as exportações brasileiras, o agronegócio e as relações comerciais do Brasil com o mundo. No Correio Capital, assina as seções Comércio Global e Brasil no Mundo.
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