A Pantera Capital, uma das principais gestoras de investimentos em criptomoedas, revelou que o mercado de tokenização está crescendo em tamanho, mas não em inovação. Segundo a empresa, conforme reportou a BeInCrypto, 77,6% dos US$ 321 bilhões em ativos tokenizados globalmente são apenas “wrappers” (embalagens digitais) de ativos tradicionais. Em outras palavras: a maior parte do mercado consiste em versões digitais de ativos que já existiam, sem adicionar novas funcionalidades ou utilidades.
Tokenização é o processo de transformar um ativo do mundo real (como imóveis, ações, títulos de dívida ou commodities) em um token digital registrado em blockchain (uma espécie de cartório público digital que qualquer pessoa pode auditar). A promessa original da tokenização era democratizar o acesso a investimentos e criar mercados mais eficientes, mas a realidade atual mostra que a maioria dos projetos apenas replica estruturas antigas em formato digital. Para contextualizar com o mercado brasileiro: seria como digitalizar uma debênture da Petrobras em blockchain sem alterar nada em sua estrutura, liquidez ou acessibilidade.
A análise da Pantera Capital expõe seis pontos críticos sobre o estado atual do mercado. Primeiro, a concentração em wrappers básicos indica que a indústria ainda não explorou o potencial transformador da tecnologia. Segundo, o crescimento em volume (US$ 321 bilhões) não reflete avanços em casos de uso inovadores. Terceiro, a maior parte dos ativos tokenizados permanece restrita a investidores institucionais, contrariando a narrativa de democratização. Quarto, a liquidez desses ativos continua baixa, limitando sua utilidade prática. Quinto, a regulação fragmentada globalmente dificulta a padronização. Sexto, falta infraestrutura madura para suportar aplicações mais complexas.
Para o investidor brasileiro, essa realidade tem implicações diretas. Os ETFs de criptomoedas negociados na B3 (como HASH11, BITH11, QBTC11 e ETHE11) são, em essência, wrappers: embalagens que permitem exposição a Bitcoin e Ethereum através da bolsa tradicional, sem alterar a natureza dos ativos subjacentes. Segundo conhecimento de mercado, o Banco Central brasileiro e a CVM têm estudado frameworks para tokenização de títulos públicos e ativos financeiros, mas ainda não há regulação específica consolidada. O projeto Drex (real digital do Banco Central) prevê infraestrutura para tokenização, mas sua implementação completa ainda está em fase piloto, conforme dados públicos do Banco Central.
A crítica da Pantera Capital não invalida o potencial da tokenização, mas alerta para a distância entre promessa e realidade. Historicamente, tecnologias disruptivas passam por fases iniciais de replicação antes de atingir inovação genuína. A internet dos anos 1990, a título de comparação, começou digitalizando jornais impressos antes de criar formatos nativos como redes sociais e streaming. A questão é quanto tempo o mercado de tokenização levará para superar a fase das embalagens digitais e entregar valor real aos usuários finais.
📊 Número do Dia
77,6% , Percentual de ativos tokenizados que são apenas versões digitais de ativos tradicionais, sem funcionalidades novas, segundo análise da Pantera Capital sobre o mercado de US$ 321 bilhões
Por que isso importa
A revelação da Pantera Capital expõe a lacuna entre o discurso de inovação e a prática do mercado de tokenização. Para investidores brasileiros, isso significa que a maioria dos produtos disponíveis (incluindo ETFs cripto na B3) ainda não entrega a democratização ou eficiência prometidas pela tecnologia blockchain. Compreender essa realidade ajuda a calibrar expectativas e identificar quais projetos realmente agregam valor além da simples digitalização de ativos existentes. Para reguladores como CVM e Banco Central, o diagnóstico reforça a necessidade de frameworks que incentivem inovação genuína, não apenas migração digital de estruturas antigas.
Fonte original: https://beincrypto.com/pantera-tokenization-321-billion-wrappers/












