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segunda-feira, 27 de julho de 2026 Brasil

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Carta da Redação : A Semana da Economia

O Brasil quer processar terras raras, o Fed pode apertar juros e o governo bloqueia mercados preditivos. A semana em que todos tentaram controlar o futuro.

Mulher executiva de terno analisando relatórios em escritório com vista para terminal portuário de contêineres
Profissional do setor portuário revisa documentos comerciais com vista para terminal de contêineres.

Há semanas em que a economia brasileira parece decidida a surpreender — e outras em que ela apenas confirma que surpresa, aqui, é artigo de luxo.

A Leitura da Semana

O Brasil detém 23% das reservas globais de terras raras — aqueles 17 elementos químicos com nomes impronunciáveis que fazem carros elétricos funcionarem, turbinas eólicas girarem e smartphones existirem. A Serra Verde, em Minaçu (GO), acaba de ser comprada pela americana USA Rare Earth por US$ 300 milhões. Curiosamente, o governo brasileiro anunciou na mesma semana que não quer apenas exportar esses minerais brutos — quer processá-los aqui. A estratégia é clara: transformar vantagem geológica em vantagem industrial. A China domina 70% do processamento global dessas terras raras; o Brasil quer uma fatia desse mercado de US$ 8 bilhões anuais. Se funcionar, deixaremos de ser apenas a mina do mundo para nos tornarmos também a fábrica.

Nos Estados Unidos, Jerome Powell encerrou a semana sem investigação e Kevin Warsh ganhou impulso para assumir o Federal Reserve. Warsh, ex-conselheiro do Fed durante a crise de 2008, é visto como mais ortodoxo que Powell — o que, em linguagem de mercado, significa juros altos por mais tempo. Para o Brasil, isso importa por uma razão simples: quando o Fed aperta, o dólar se fortalece, e países emergentes sentem na pele. O real fechou a semana abaixo de R$ 5, mas a nomeação de Warsh pode mudar esse cenário rapidamente. Mercados emergentes não escolhem seus próprios juros — apenas reagem aos dos outros.

Enquanto isso, a Raízen ofereceu até R$ 5 bilhões aos credores, mas rejeitou perder o controle do conselho. A gigante do etanol e combustíveis enfrenta uma reestruturação de dívida que expõe a fragilidade de empresas que cresceram rápido demais com dinheiro barato. O Banco do Brasil lançou conta digital para uso em Portugal, sinalizando que a internacionalização bancária brasileira continua — mesmo que discreta. E o governo bloqueou 27 plataformas de mercados preditivos, aquelas onde se aposta em eleições, inflação ou qualquer evento futuro. A justificativa oficial é proteger o consumidor; a leitura de mercado é que o governo prefere controlar a narrativa sobre o futuro.

Perspectiva & Olhar da Redação

O que conecta terras raras, o Fed e mercados preditivos? A disputa pelo controle do futuro. O Brasil quer controlar o processamento de minerais estratégicos. Os Estados Unidos querem controlar a inflação global via juros. O governo brasileiro quer controlar quem aposta no que vai acontecer. Todos estão tentando reduzir incertezas — mas a economia, sempre tão previsível, insiste em surpreender.

A boa notícia é que o Brasil está, pela primeira vez em décadas, pensando além da exportação de matéria-prima. A má notícia é que isso exige investimento, tecnologia e paciência — três coisas que não abundam por aqui. A confiança do consumidor subiu pelo segundo mês consecutivo, alcançando 89,1 pontos. O Ibovespa recuou 0,57%, mas sem drama. O dólar oscilou, mas fechou comportado.

O Brasil está aprendendo a jogar o jogo das cadeias de valor globais — não apenas fornecendo a matéria-prima, mas processando, agregando valor, exportando tecnologia. É um jogo longo, complexo, cheio de armadilhas. Mas é o único jogo que vale a pena jogar. Afinal, de que adianta ter 23% das reservas globais de terras raras se continuarmos exportando apenas terra?

— Vitor Ribeiro
Correio Capital