Há semanas em que a economia brasileira parece decidida a surpreender — e outras em que ela apenas confirma que surpresa, aqui, é artigo de luxo.
A Leitura da Semana
O Brasil detém 23% das reservas globais de terras raras — aqueles 17 elementos químicos com nomes impronunciáveis que fazem carros elétricos funcionarem, turbinas eólicas girarem e smartphones existirem. A Serra Verde, em Minaçu (GO), acaba de ser comprada pela americana USA Rare Earth por US$ 300 milhões. Curiosamente, o governo brasileiro anunciou na mesma semana que não quer apenas exportar esses minerais brutos — quer processá-los aqui. A estratégia é clara: transformar vantagem geológica em vantagem industrial. A China domina 70% do processamento global dessas terras raras; o Brasil quer uma fatia desse mercado de US$ 8 bilhões anuais. Se funcionar, deixaremos de ser apenas a mina do mundo para nos tornarmos também a fábrica.
Nos Estados Unidos, Jerome Powell encerrou a semana sem investigação e Kevin Warsh ganhou impulso para assumir o Federal Reserve. Warsh, ex-conselheiro do Fed durante a crise de 2008, é visto como mais ortodoxo que Powell — o que, em linguagem de mercado, significa juros altos por mais tempo. Para o Brasil, isso importa por uma razão simples: quando o Fed aperta, o dólar se fortalece, e países emergentes sentem na pele. O real fechou a semana abaixo de R$ 5, mas a nomeação de Warsh pode mudar esse cenário rapidamente. Mercados emergentes não escolhem seus próprios juros — apenas reagem aos dos outros.
Enquanto isso, a Raízen ofereceu até R$ 5 bilhões aos credores, mas rejeitou perder o controle do conselho. A gigante do etanol e combustíveis enfrenta uma reestruturação de dívida que expõe a fragilidade de empresas que cresceram rápido demais com dinheiro barato. O Banco do Brasil lançou conta digital para uso em Portugal, sinalizando que a internacionalização bancária brasileira continua — mesmo que discreta. E o governo bloqueou 27 plataformas de mercados preditivos, aquelas onde se aposta em eleições, inflação ou qualquer evento futuro. A justificativa oficial é proteger o consumidor; a leitura de mercado é que o governo prefere controlar a narrativa sobre o futuro.
Perspectiva & Olhar da Redação
O que conecta terras raras, o Fed e mercados preditivos? A disputa pelo controle do futuro. O Brasil quer controlar o processamento de minerais estratégicos. Os Estados Unidos querem controlar a inflação global via juros. O governo brasileiro quer controlar quem aposta no que vai acontecer. Todos estão tentando reduzir incertezas — mas a economia, sempre tão previsível, insiste em surpreender.
A boa notícia é que o Brasil está, pela primeira vez em décadas, pensando além da exportação de matéria-prima. A má notícia é que isso exige investimento, tecnologia e paciência — três coisas que não abundam por aqui. A confiança do consumidor subiu pelo segundo mês consecutivo, alcançando 89,1 pontos. O Ibovespa recuou 0,57%, mas sem drama. O dólar oscilou, mas fechou comportado.
O Brasil está aprendendo a jogar o jogo das cadeias de valor globais — não apenas fornecendo a matéria-prima, mas processando, agregando valor, exportando tecnologia. É um jogo longo, complexo, cheio de armadilhas. Mas é o único jogo que vale a pena jogar. Afinal, de que adianta ter 23% das reservas globais de terras raras se continuarmos exportando apenas terra?
— Vitor Ribeiro
Correio Capital












