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Biometano cresce 1.800% no Brasil em seis anos

Plantas de biometano no Brasil saltam de 1 para 19 em seis anos. Com 45 novas unidades em construção, capacidade pode triplicar até 2029, atraindo R$ 3,8 bi.
A indústria de biometano no Brasil registrou expansão acelerada desde 2020, saltando de uma para 19 plantas em operação. Com 45 novas instalações em construção, a capacidade de produção pode triplicar até o fim da década, impulsionada por metas de descarbonização e pela Lei do Combustível do Futuro.

O Brasil vive um boom na produção de biometano, combustível que pode reduzir em até 99% as emissões de carbono em comparação com combustíveis fósseis. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o número de plantas em operação saltou de uma, em 2020, para 19, em 2026 — um crescimento de 1.800%. Com outras 45 instalações em construção, a capacidade diária de produção nacional pode saltar dos atuais 1,2 milhão de metros cúbicos para 3 milhões de metros cúbicos.

O biometano é produzido a partir da decomposição de matéria orgânica — lixo urbano, resíduos agrícolas e dejetos de animais — em ambiente controlado e sem oxigênio. Após purificação, o biogás resultante se transforma em biometano, com composição química quase idêntica ao gás natural e a mesma eficiência energética. Isso permite que ambos sejam misturados na mesma rede de dutos, aproveitando a infraestrutura já existente — como se fosse possível usar o mesmo encanamento para dois tipos de água.

Metas de descarbonização aceleram demanda

Em abril de 2026, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) estabeleceu meta de redução de 0,5% nas emissões de gases de efeito estufa para o mercado de gás natural, a ser cumprida por produtores e importadores via consumo de biometano. A medida, prevista na Lei do Combustível do Futuro de 2024, começaria em 1%, mas foi ajustada com base em balanços recentes de oferta e demanda. Segundo a ANP, a produção de biometano em fevereiro de 2026 foi de 10,6 milhões de metros cúbicos — média de 380 mil m³ por dia —, indicando que a capacidade instalada ainda não é plenamente utilizada.

A expectativa é que a regulação impulsione novos investimentos. Segundo Tiago Santovito, diretor-executivo da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), a produção de biometano no país já atraiu cerca de R$ 3 bilhões em aportes. Outra vantagem competitiva é o preço: definido no mercado doméstico, o biometano fica menos exposto às oscilações do câmbio e do petróleo, ao contrário do diesel e do gás natural importado.

Comparação internacional

A título de comparação, a Alemanha é líder mundial na produção de biometano, com mais de 200 plantas em operação e capacidade instalada superior a 10 milhões de metros cúbicos diários. O Brasil, com 19 plantas, ainda está no início da curva de crescimento, mas o ritmo de expansão — 1.800% em seis anos — supera o observado em mercados europeus na mesma fase de desenvolvimento.

Modelos de negócio inovadores

A Gás Verde adotou a estratégia de instalar usinas dentro de aterros sanitários para produzir biometano a partir de resíduos sólidos urbanos. A empresa já opera duas plantas, em Seropédica (RJ) e São Paulo, e prevê chegar a 11 até 2029, elevando a capacidade de 160 mil para 650 mil metros cúbicos diários. O investimento planejado é de R$ 900 milhões nos próximos três anos, com foco em regiões industriais da Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Pernambuco.

A H2A Bioenergia inaugurou em março sua primeira planta em Campos Novos (SC), com investimento de R$ 65 milhões, produzindo biometano a partir de dejetos de porcos. A empresa planeja investir R$ 2,9 bilhões até 2031 para implantar 22 usinas no Centro-Sul, aproveitando resíduos do agronegócio e criando receita para produtores rurais que antes arcavam com custos de armazenamento e tratamento desses materiais. Segundo o diretor-presidente Adilson Teixeira Lima, o biometano sai da planta custando 50% do valor do diesel, com contratos de 10 a 15 anos reajustados pelo IPCA (índice que mede a inflação oficial do país).

Desafios e potencial

A ABiogás estima que o Brasil tem potencial teórico de produção de 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia — 40 vezes a capacidade atual. Para destravar esse potencial, seria necessário maior reaproveitamento de resíduos, avanço no fechamento de lixões (prazo legal venceu em agosto de 2024, mas não foi cumprido) e desburocratização do licenciamento ambiental. Segundo Marcio Pereira, do BMA Advogados, simplificar processos em casos onde questões ambientais já foram analisadas na licença do aterro sanitário é fator relevante para fomentar novos negócios.

📊 Número do Dia

1.800% , Crescimento no número de plantas de biometano no Brasil entre 2020 e 2026, saltando de 1 para 19 unidades

Por que isso importa

Para empresas com metas de descarbonização, o biometano oferece alternativa competitiva ao diesel e ao gás natural, com preço 50% menor que o diesel e contratos de longo prazo protegidos da volatilidade cambial. Para o cidadão, a expansão do setor pode reduzir custos de transporte e energia, além de resolver o problema ambiental do acúmulo de resíduos urbanos e rurais. Para investidores, o setor já atraiu R$ 3 bilhões e projeta mais R$ 3,8 bilhões em novos aportes até 2031, com retorno garantido por regulação governamental que obriga produtores de gás natural a consumir biometano.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/transicao-energetica/noticia/2026/04/16/com-capacidade-de-reduzir-ate-99percent-nas-emissoes-de-carbono-biometano-registra-boom-no-brasil.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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