A Oncoclínicas, maior rede de oncologia do Brasil, encerrou 2025 com prejuízo de R$ 3,67 bilhões — cinco vezes maior que as perdas de R$ 717 milhões registradas em 2024. Segundo o balanço divulgado pela empresa, o capital circulante (a diferença entre o que a empresa tem para receber no curto prazo e o que precisa pagar) está negativo em R$ 2,31 bilhões. Na prática, é como se a empresa devesse mais contas imediatas do que tem dinheiro disponível para pagá-las.
A crise tem impacto direto nos pacientes. Multiplicam-se relatos de tratamentos de câncer adiados por falta de medicamentos nas clínicas da rede. A pensionista Sueli de Lima Gazoni, de 57 anos, teve sua sessão de imunoterapia (tratamento que usa o próprio sistema imunológico para combater o câncer) adiada duas vezes na mesma semana. A professora Mônica Ferreira, em tratamento há seis anos, também enfrentou reagendamentos sucessivos. A empresa admitiu “instabilidade no abastecimento de determinados medicamentos”.
O que levou a empresa à crise
Dois eventos principais explicam a deterioração financeira: perdas de R$ 430,8 milhões com investimentos no Banco Master e inadimplência de R$ 861 milhões da Unimed Ferj (que deixou de pagar pelos serviços prestados). Somados, esses dois problemas representam R$ 1,29 bilhão — mais de um terço do prejuízo total do ano.
A situação se agravou porque a empresa não conseguiu cumprir metas financeiras estabelecidas em contratos de empréstimos. A alavancagem (indicador que mostra quanto a empresa depende de dívida para operar) chegou a 4,3 vezes o Ebitda, quando o limite contratual era de 3,5 vezes. Para entender: é como se a empresa tivesse dívidas equivalentes a mais de quatro anos de seu lucro operacional — um nível considerado arriscado pelos credores.
A consultoria Deloitte, responsável pela auditoria independente, alertou que o descumprimento desses índices “pode ensejar o vencimento antecipado pelos credores” — ou seja, os bancos e investidores podem exigir o pagamento imediato das dívidas. O CEO Carlos Gil Ferreira admitiu que a empresa opera em “cenário de pressão de liquidez” e que a prioridade é manter o atendimento aos pacientes.
Comparação internacional
A título de comparação, nos Estados Unidos, redes de oncologia que enfrentaram crises semelhantes recorreram a processos de recuperação judicial (Chapter 11) para reorganizar dívidas enquanto mantinham operações. No Brasil, a Oncoclínicas avalia buscar proteção judicial temporária contra credores, mecanismo semelhante que impede cobranças enquanto a empresa negocia um plano de reestruturação.
As alternativas em discussão
A empresa negocia duas propostas principais de socorro financeiro. A primeira vem do grupo Porto Seguro, que oferece R$ 500 milhões para criar uma nova empresa que ficaria com as 146 clínicas de oncologia e parte da dívida atual. O acordo, em discussão até 12 de abril, também prevê a emissão de debêntures conversíveis (títulos de dívida que podem virar ações) de até R$ 500 milhões. O grupo Fleury participa das negociações.
A segunda alternativa é um empréstimo de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões, mais um aporte de R$ 500 milhões do fundo americano Mak Capital, que já detém 6,3% das ações da empresa. Porém, o Mak Capital condiciona o aporte à convocação de uma assembleia extraordinária para destituir o atual Conselho de Administração — uma exigência que sinaliza desconfiança na gestão atual. A assembleia está marcada para 30 de abril.
Para tentar aliviar o caixa, a empresa já vendeu o Uberlândia Medical Center em fevereiro e negocia a venda do Hospital Vila da Serra, em Belo Horizonte. Projetos de novos centros de oncologia em São Paulo e Belo Horizonte foram cancelados.
📊 Número do Dia
R$ 3,67 bilhões , Prejuízo acumulado pela Oncoclínicas em 2025, cinco vezes maior que em 2024
Por que isso importa
A crise da Oncoclínicas afeta diretamente milhares de pacientes oncológicos que dependem da rede para tratamento, com relatos crescentes de adiamentos por falta de medicamentos. Para investidores, a situação expõe os riscos de empresas de saúde altamente alavancadas em um setor dependente de pagadores (planos de saúde e governo). Para o mercado, serve de alerta sobre a fragilidade de modelos de negócio baseados em expansão rápida com endividamento elevado, especialmente quando eventos imprevistos (como a quebra do Banco Master) comprometem a liquidez.












