O Banco Central brasileiro está funcionando com apenas 3,4 mil dos 6.470 cargos previstos em lei — cerca de metade da força de trabalho necessária. O alerta foi feito pelo presidente da instituição, Gabriel Galípolo, ao depor na CPI do Crime Organizado do Senado nesta quarta-feira (8). Ele pediu a aprovação urgente da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65/2023, que confere ao BC autonomia técnica, orçamentária e financeira — ou seja, a capacidade de gerir seus próprios recursos, contratar pessoal e investir em tecnologia sem depender de aprovações do governo federal a cada passo.
“Desde a minha sabatina, eu já pedi apoio, ajuda e, agora, estou pedindo socorro”, afirmou Galípolo, segundo a Agência Brasil. Ele argumentou que a instituição depende “do senso de responsabilidade dos servidores públicos” para funcionar, mas enfrenta dificuldades estruturais para contratar e modernizar seus sistemas. A situação é crítica num momento em que o BC precisa fiscalizar um sistema financeiro cada vez mais complexo, com fintechs, criptomoedas e novos mecanismos de pagamento — além de colaborar no combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado.
Para dimensionar o problema, Galípolo comparou o BC brasileiro com instituições semelhantes no exterior. O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, conta com 23 mil servidores; o da Índia, com 13 mil. A título de comparação, o Banco Central Europeu emprega cerca de 3.500 pessoas, mas supervisiona apenas a política monetária da zona do euro — não o sistema financeiro de cada país, tarefa que cabe aos bancos centrais nacionais. No Brasil, o BC acumula ambas as funções: define a taxa básica de juros (a Selic, que influencia todos os demais juros da economia) e fiscaliza bancos, cooperativas de crédito e instituições de pagamento.
O que muda com a PEC
A PEC 65/2023 propõe transformar o Banco Central em uma empresa pública com poder de polícia, desvinculada de ministérios e com orçamento próprio. Na prática, é como se o BC deixasse de depender do Ministério da Economia para contratar ou comprar equipamentos — mas continuaria prestando contas ao Congresso Nacional. A proposta não altera a autonomia operacional do BC, conquistada em 2021, que já garante mandatos fixos para o presidente e diretores da instituição, impedindo demissões por divergências políticas. O que está em jogo agora é a capacidade de execução: ter gente e tecnologia suficientes para fazer o trabalho.
Galípolo frisou que autonomia não significa falta de controle. “De maneira nenhuma o BC quer se eximir da responsabilidade de prestar contas sobre qualquer centavo que gastar. Quanto mais instituições houver para o BC prestar contas, melhor”, disse, segundo a Agência Brasil. O argumento central é que, sem recursos adequados, o BC não consegue acompanhar a sofisticação do mercado financeiro nem as estratégias do crime organizado, que “encontra dinheiro para adquirir novas tecnologias e maneiras de burlar o sistema”.
📊 Número do Dia
3,4 mil — Número de servidores atualmente no Banco Central — apenas 53% dos 6.470 cargos previstos em lei, contra 23 mil no Federal Reserve dos EUA
Por que isso importa
Um Banco Central subdimensionado compromete a fiscalização do sistema financeiro e a eficácia da política monetária. Para o cidadão, isso pode significar menos proteção contra fraudes e golpes financeiros. Para empresas e investidores, aumenta o risco de instabilidade no sistema bancário e de falhas na supervisão de instituições. A aprovação da PEC é vista como condição para que o BC consiga acompanhar a inovação do mercado e combater crimes financeiros de forma eficaz.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/galipolo-pede-aprovacao-de-pec-que-preve-mais-autonomia-para-o-bc












