O novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, assumiu o comando da política econômica em um momento delicado: a dívida pública brasileira atingiu 78,7% do PIB (Produto Interno Bruto, que é a soma de tudo que o país produz em um ano) e o governo precisa equilibrar o controle de gastos com pressões políticas típicas de ano eleitoral. Segundo a Agência Brasil, logo nos primeiros dias à frente da pasta, Durigan anunciou um bloqueio de R$ 1,6 bilhão no Orçamento de 2026 — valor considerado modesto por analistas diante da necessidade de cumprir o arcabouço fiscal (a regra que limita o crescimento dos gastos públicos a 2,5% acima da inflação).
O bloqueio foi necessário porque as despesas obrigatórias do governo — aquelas que não podem ser cortadas, como aposentadorias e salários de servidores — continuam crescendo. Oficialmente, a equipe econômica projeta um superávit primário (quando o governo arrecada mais do que gasta, sem contar os juros da dívida) de apenas R$ 3,5 bilhões em 2026. Porém, ao incluir precatórios (dívidas judiciais que o governo é obrigado a pagar) e gastos fora do arcabouço fiscal, o próprio governo prevê um déficit primário de R$ 59,8 bilhões — ou seja, gastará quase R$ 60 bilhões a mais do que arrecada, segundo dados da Agência Brasil.
Medidas emergenciais pressionam o caixa
Ao mesmo tempo em que anuncia contenção de gastos, o ministro articula medidas de impacto imediato. Entre elas, destaca-se a criação de um subsídio de R$ 1,20 por litro para o diesel importado, com custo estimado de R$ 3 bilhões, dividido entre União e estados. A medida, que será formalizada por medida provisória nesta semana, busca segurar a alta dos combustíveis em meio à elevação dos preços internacionais do petróleo — um movimento que afeta economias ao redor do mundo, mas que no Brasil ganha contornos políticos em ano eleitoral.
Durigan também trabalha na formulação de um pacote para enfrentar o avanço da inadimplência, que já compromete mais de 27% da renda mensal das famílias brasileiras, conforme dados recentes do Banco Central. É como se, de cada R$ 100 que uma família ganha, R$ 27 estivessem comprometidos apenas com o pagamento de dívidas atrasadas. Em tese, o pacote não gerará custo para as contas públicas se envolver apenas medidas de renegociação de crédito, mas pode criar despesas caso o governo decida ampliar os subsídios ao crédito.
Outra medida que pode pressionar os gastos seria uma possível redução, durante a campanha eleitoral, da chamada “taxa das blusinhas” — a alíquota de 20% sobre compras do exterior de até US$ 50. No ano passado, o governo arrecadou R$ 5 bilhões com o tributo, ajudando a cumprir a meta fiscal.
Comparação internacional e desafios estruturais
A título de comparação, a dívida pública brasileira de 78,7% do PIB é superior à de países emergentes como México (cerca de 50% do PIB) e Colômbia (aproximadamente 60% do PIB), segundo dados públicos do FMI. Essa diferença reflete não apenas o tamanho da dívida, mas também a dificuldade do Brasil em controlar seus gastos obrigatórios e gerar superávits primários consistentes.
Para a doutora em Economia Virene Matesco, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), o principal problema está na dificuldade que o governo tem de cumprir as próprias metas fiscais. “O governo atual não consegue cumprir as metas que ele mesmo estabeleceu no arcabouço”, afirmou à Agência Brasil. Segundo Matesco, a fragilidade do arcabouço fiscal e o crescimento da dívida pública comprometem a confiança na política econômica e limitam a capacidade de ação do ministro. “Existe uma crise de credibilidade fiscal”, alertou, destacando que o país enfrenta um desequilíbrio entre despesas com juros (o custo de carregar a dívida) e investimentos públicos (obras, infraestrutura, educação).
Já o economista André Nassif, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que parte das dificuldades atuais decorre de metas fiscais excessivamente ambiciosas definidas no início da gestão do ex-ministro Fernando Haddad. Originalmente, o governo tinha estabelecido meta de déficit zero em 2024 e superávit primário de 0,5% do PIB em 2025 e de 1% do PIB em 2026. Na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias, que define as metas fiscais) de 2025, o governo prolongou a meta de déficit zero para 2025 e reduziu para 0,25% do PIB a meta de superávit para 2026 — mudança que gerou mal-estar no mercado financeiro.
Para Nassif, o aperto fiscal acabou limitando investimentos públicos, que seguem em patamar baixo, cerca de 2,3% do PIB, insuficiente para sustentar um crescimento econômico mais robusto. “O país não está entregando crescimento econômico. Continuamos no ‘stop and go'”, disse, referindo-se ao ciclo irregular de crescimento brasileiro: cresce um pouco, freia, cresce de novo, freia novamente.
📊 Número do Dia
78,7% — Percentual da dívida pública brasileira em relação ao PIB, patamar superior ao de países emergentes como México (50%) e Colômbia (60%)
Por que isso importa
Para o cidadão, o aperto fiscal significa menos espaço para investimentos em saúde, educação e infraestrutura, enquanto medidas emergenciais como o subsídio ao diesel podem segurar temporariamente a alta de preços, mas pressionam ainda mais as contas públicas. Para o investidor, a dificuldade do governo em cumprir suas próprias metas fiscais alimenta a desconfiança e pode manter os juros elevados por mais tempo. Para as empresas, a inadimplência crescente das famílias reduz o consumo e aumenta a inadimplência nos setores de varejo e crédito.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/durigan-assume-fazenda-sob-pressao-fiscal-e-herda-desafios-de-haddad












