O Brasil enfrenta uma crise de endividamento que atinge 81 milhões de pessoas com dívidas em atraso, segundo dados da Serasa. Para dimensionar: isso representa cerca de metade da população adulta brasileira. As dívidas de cartão de crédito lideram o ranking, seguidas por contas básicas como água, luz e gás — um ciclo que força muitos brasileiros a tomar novos empréstimos para pagar dívidas antigas, criando uma bola de neve financeira.
Em 2025, os bancos lideraram a lista de réus em ações consumeristas no país, conforme aponta a advogada Stephanie Eschiapati, do escritório Lopes Muniz Advogados. Os principais abusos incluem aplicação de juros acima da taxa contratual (ou seja, o banco cobra mais do que foi combinado), cobrança de tarifas não contratadas e venda casada de seguros embutidos no contrato sem conhecimento do cliente. É como se você comprasse um carro e descobrisse depois que pagou por acessórios que nunca pediu.
Três documentos para desvendar a dívida
Três documentos gratuitos e acessíveis podem ajudar o consumidor a identificar irregularidades: o extrato analítico completo do contrato, o Descritivo de Evolução da Dívida (DED) e o Relatório de Informações Bancárias. Os dois primeiros são solicitados diretamente ao banco via aplicativo, agência ou SAC, e devem ser entregues em até sete dias. Eles detalham taxas de juros, prazos, encargos e a evolução do saldo devedor — informações essenciais para verificar se o que está sendo cobrado corresponde ao que foi contratado.
Já o Relatório de Informações Bancárias, disponível no site do Banco Central pelo sistema Registrato, oferece uma visão consolidada do relacionamento do cliente com a instituição financeira. Segundo Igor Marchetti, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), esse conjunto de documentos pode revelar elementos para revisão de cláusulas abusivas e questionamento de valores já pagos, mas não baixados no sistema.
Comparação internacional
A título de comparação, nos Estados Unidos, a taxa de inadimplência de cartões de crédito gira em torno de 3% do total de crédito concedido, segundo dados do Federal Reserve. No Brasil, o problema é estruturalmente mais grave: além do volume absoluto de inadimplentes, as taxas de juros do cartão de crédito rotativo (aquele que você usa quando não paga a fatura inteira) chegam a ultrapassar 400% ao ano, entre as mais altas do mundo. Isso torna ainda mais importante que o consumidor brasileiro fiscalize ativamente seus contratos.
Alternativas além do judiciário
Identificadas irregularidades, o primeiro passo é reportá-las aos canais de atendimento do banco. Se não houver solução, o caminho é a plataforma Consumidor.gov.br ou o Banco Central. Mesmo sem constatar abusividade, a revisão das dívidas pode orientar renegociações que chegam a 90% de desconto, segundo o advogado Leonardo Batista de Souza. Outra alternativa é a portabilidade de crédito: transferir a dívida para outra instituição que ofereça juros menores e prazos melhores — mas só é vantajosa se o novo contrato tiver valor e prazo inferiores ao original.
Para quem precisa de apoio técnico, o Procon-RJ oferece orientação via WhatsApp, e a Defensoria Pública possui núcleos especializados em defesa do consumidor. O professor Ícaro Demarchi Leite, do Ibmec SP, recomenda atenção especial a três pontos nos documentos: divergência entre o contratado e o cobrado, dificuldade para entender a evolução do saldo devedor e cobrança de encargos sem explicação clara.
📊 Número do Dia
81 milhões , Número de brasileiros inadimplentes, segundo a Serasa — cerca de metade da população adulta do país
Por que isso importa
Para o cidadão, entender os documentos bancários pode significar a diferença entre pagar uma dívida eternamente ou renegociá-la com desconto de até 90%. Para o mercado financeiro, a pressão por transparência e o aumento de ações judiciais contra bancos sinalizam a necessidade de revisão de práticas comerciais. Para o investidor, o alto endividamento das famílias limita o consumo e pode afetar o crescimento econômico, além de aumentar a inadimplência no sistema bancário.












