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Fraude com IA rende US$ 8 milhões em royalties musicais

Esquema combinava criação automatizada de faixas e reprodução por bots, desviando recursos destinados a artistas legítimos
Monitor exibindo painel de controle de plataforma musical com 1,2 milhão de plays e R$ 45.820 em ganhos, royalties digitais
Michael Smith, da Carolina do Norte, se declarou culpado de fraude após usar inteligência artificial para criar centenas de milhares de músicas e programar bots para reproduzi-las bilhões de vezes em plataformas como Spotify, Apple Music e Amazon Music. O esquema rendeu mais de US$ 8 milhões em royalties fraudulentos.

Michael Smith montou um esquema sofisticado que combinou duas tecnologias: inteligência artificial para criar músicas e bots (programas automáticos) para simular ouvintes reais. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, ele gerou centenas de milhares de faixas musicais usando IA e programou sistemas automatizados para reproduzi-las bilhões de vezes em serviços de streaming como Spotify, Apple Music, Amazon Music e YouTube Music. O objetivo era simular atividade genuína de consumidores reais e receber os royalties (pagamentos que artistas recebem cada vez que suas músicas são tocadas).

O esquema funcionava subtraindo dinheiro de um fundo comum que deveria remunerar artistas legítimos. Plataformas de streaming mantêm um “pool” de recursos — imagine uma grande piscina de dinheiro — que é dividido entre todos os músicos proporcionalmente ao número de reproduções que recebem. Ao inflar artificialmente suas próprias reproduções, Smith desviava parte desse dinheiro que deveria ir para compositores e intérpretes reais. Uma investigação da Rolling Stone revelou que ele gerenciava 1.040 contas em plataformas de streaming, tocando cerca de 636 músicas por dia em cada uma delas, o que gerava aproximadamente US$ 3.300 diários — mais de US$ 1,2 milhão por ano.

A fraude expõe uma vulnerabilidade crescente da indústria musical na era da inteligência artificial. Dados da plataforma francesa Deezer, citados pelo The Guardian, mostram que 97% dos usuários não conseguem diferenciar música real de música criada por IA. Além disso, cerca de 60 mil músicas geradas por IA são adicionadas diariamente às plataformas de streaming. A Suno, uma plataforma especializada em criação musical com IA, gera sozinha 7 milhões de músicas por dia. A título de comparação, o Spotify tem cerca de 100 milhões de faixas em seu catálogo — um número que levou décadas para ser construído e que agora pode ser superado em questão de dias pela produção artificial.

O caso não é isolado e representa um desafio global para a indústria. Embora o episódio tenha ocorrido nos Estados Unidos, plataformas de streaming operam globalmente, incluindo no Brasil, onde o mercado musical movimentou R$ 2,7 bilhões em 2023, segundo a Pro-Música Brasil. Fraudes como a de Smith afetam artistas de todos os países, pois competem pelo mesmo fundo de royalties. O Spotify já implementou políticas que proíbem “roubo de identidade” e exigem divulgações sobre uso de IA nos créditos musicais, além de investir em sistemas de detecção de reproduções artificiais.

Smith foi preso em setembro de 2024 e agora enfrenta pena máxima de cinco anos de prisão. Sua sentença está marcada para 29 de julho de 2026. “O plano descarado de Smith acabou, pois ele foi condenado por um crime federal por fraude assistida por IA”, declarou Jay Clayton, Procurador dos EUA para o Distrito Sul de Nova York.

📊 Número do Dia

US$ 8 milhões , Valor em royalties fraudulentos obtidos por Michael Smith usando músicas criadas por IA e bots para simular reproduções

Por que isso importa

Para artistas brasileiros e internacionais, o caso representa uma ameaça direta à remuneração justa: cada reprodução falsa dilui o valor pago por reproduções legítimas. Para plataformas de streaming, expõe a urgência de investir em sistemas de detecção de fraude. Para o cidadão comum, revela como a inteligência artificial pode ser usada para crimes financeiros sofisticados que afetam a economia criativa global. O episódio também sinaliza que reguladores estão atentos: a condenação criminal estabelece precedente para coibir fraudes similares.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/epoca/noticia/2026/03/30/homem-usa-bots-para-ouvir-musicas-que-criou-com-ia-ganha-r-42-milhoes-em-royalties-e-pode-ficar-5-anos-preso-nos-eua-entenda.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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