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Brasil prevê R$ 34 bilhões em saneamento para 2026

Marco regulatório impulsionou investimentos privados em 583%, mas desigualdade regional ameaça meta de universalização até 2033
Trabalhador de capacete amarelo e colete refletivo instala tubos de PVC em obra de saneamento básico com retroescavadeira ao fundo
O Brasil tem 26 leilões de saneamento previstos para 2026, que devem gerar R$ 34,1 bilhões em investimentos e beneficiar 11,9 milhões de pessoas em 567 municípios, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon).

Desde que o marco regulatório do saneamento foi aprovado em 2020, o Brasil já realizou 64 leilões no setor, mobilizando mais de R$ 200 bilhões em investimentos contratados. Segundo dados da Abcon, a participação privada no saneamento cresceu 583% (ou mais de seis vezes) nesse período — um salto expressivo que mostra como a nova legislação destrancou investimentos que antes não aconteciam.

Para 2026, estão previstos 26 novos leilões, sendo quatro grandes parcerias público-privadas (PPPs) — um modelo em que o governo contrata uma empresa privada para construir e operar infraestrutura, mas mantém a propriedade do serviço. Entre os projetos estão os de tratamento de esgoto de Goiás e da Paraíba, que juntos devem somar R$ 20,4 bilhões em aportes e alcançar 477 municípios. O BNDES (banco público de fomento) estruturou 19 leilões desde 2016 e hoje trabalha em oito novos projetos.

Apesar dos avanços, os números mostram que o caminho é longo. Segundo o Instituto Trata Brasil, 15,9% dos brasileiros ainda não têm acesso à água tratada — o mesmo patamar de 2020. No esgoto, houve melhora: hoje mais de 60% da população tem acesso ao serviço, mas isso ainda significa que quatro em cada dez brasileiros vivem sem coleta ou tratamento de esgoto. Para comparação, no Chile, país latino-americano com desenvolvimento similar ao Brasil, a cobertura de esgoto já ultrapassa 96% da população urbana.

Desigualdade regional é o maior obstáculo

O economista Claudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria, alerta que a universalização — meta de levar água e esgoto a todos os brasileiros até 2033 — não será uniforme. “Vamos universalizar no prazo? Sim e não, porque não será uniforme”, afirma. Estados do Sul e Sudeste devem atingir a meta, mas Norte e Nordeste enfrentam desafios maiores, especialmente no Amazonas e no semiárido nordestino, onde falta infraestrutura básica.

Um exemplo prático: imagine que o Brasil é um condomínio onde alguns apartamentos já têm água encanada e banheiro funcionando, enquanto outros ainda dependem de poço e fossa. O marco regulatório é como uma reforma geral do prédio, mas alguns apartamentos estão em andares tão altos e com tubulação tão precária que vão demorar mais para serem conectados. Frischtak estima que, em regiões mais difíceis, a universalização pode levar até 2040 ou mais.

Outro obstáculo surgiu recentemente: o leilão da PPP de Goiás, previsto para março, foi cancelado por falta de interessados. O governo estadual anunciou que vai rever o projeto com o mercado antes de tentar novamente — um sinal de que nem todos os modelos propostos atraem investidores privados.

Quem está pagando a conta?

O financiamento do setor também mudou de patamar. Entre 2013 e 2022, o BNDES aprovou cerca de R$ 20 bilhões para saneamento. Já entre 2022 e 2025, esse valor dobrou para R$ 40 bilhões — o dobro em menos da metade do tempo, segundo Luciana Costa, diretora do banco. O BNDES atua tanto estruturando projetos (desenhando como os leilões vão funcionar) quanto financiando as obras.

Mas há preocupações no horizonte. Christianne Dias, da Abcon, alerta que a Reforma Tributária (que muda a forma como impostos são cobrados no Brasil) pode encarecer os serviços de infraestrutura. “Quem vai pagar a conta é o usuário”, diz ela, destacando que a política de modicidade tarifária — ou seja, manter as tarifas acessíveis — pode ser comprometida se muitos custos forem repassados às empresas. Recentemente, foi aprovada a lei da tarifa social, que garante descontos para famílias de baixa renda, mas ainda não há definição sobre quem vai subsidiar esses descontos.

Casos de sucesso começam a aparecer

O leilão da Cedae, empresa estadual de saneamento do Rio de Janeiro, em 2021, é um dos exemplos mais visíveis de transformação. A Aegea, empresa que arrematou dois dos quatro blocos leiloados, investiu R$ 5,1 bilhões desde então. Como resultado, 621 mil pessoas passaram a ter acesso à água pela primeira vez, e quase 1 milhão de moradores de comunidades foram incluídos como clientes formais.

O impacto ambiental também é mensurável: 114 milhões de litros de esgoto deixaram de ser despejados por dia na Baía de Guanabara, melhorando a balneabilidade (condição de banho) de praias historicamente poluídas no Rio de Janeiro. É como se a cidade tivesse parado de jogar o esgoto de uma cidade inteira do tamanho de Curitiba diretamente no mar, todos os dias.

📊 Número do Dia

R$ 34,1 bilhões , Volume de investimentos previstos nos 26 leilões de saneamento de 2026, beneficiando 11,9 milhões de pessoas

Por que isso importa

Para o cidadão, os leilões representam a possibilidade de finalmente ter acesso a água tratada e coleta de esgoto — serviços básicos que ainda faltam a milhões de brasileiros. Para empresas do setor, são oportunidades de negócio em um mercado que movimentou mais de R$ 200 bilhões desde 2020. Para investidores, o saneamento se consolidou como um dos setores de infraestrutura mais ativos do país, com projetos de longo prazo e retorno previsível, embora desafios regulatórios e regionais ainda representem riscos.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/30/leiloes-de-saneamento-previstos-para-2026-devem-gerar-r-34-bi-de-investimento-em-areas-com-119-milhoes-de-pessoas.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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