O Brasil está transformando seus aterros sanitários em verdadeiras indústrias de energia. Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), em 2024, pouco mais de 40% dos resíduos coletados no país ainda tinham destinação inadequada — ou seja, iam parar em lixões a céu aberto. Para mudar essa realidade, o país adota a regionalização da gestão de resíduos, criando consórcios intermunicipais que permitem que várias cidades compartilhem o uso de aterros sanitários modernos.
A estratégia ganhou força após o último prazo legal para desativação dos lixões ter vencido em agosto de 2024. O financiamento também deu um salto: o BNDES aprovou R$ 820 milhões para o setor nos últimos dois anos, contra apenas R$ 100 milhões entre 2019 e 2023. Segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), 63% dos municípios brasileiros já enviavam seus resíduos para aterros sanitários regionais em 2024.
Da Bahia ao Piauí: como funciona na prática
Na Bahia, 14 aterros sanitários atendem 53 municípios, beneficiando 6,7 milhões de pessoas. Mas essa mesma estrutura poderia atender mais 248 municípios, alcançando outros 5,11 milhões de habitantes. Pedro Maranhão, presidente da Abrema, explica que o estudo de logística permitiu desativar 204 lixões no estado. No Piauí, mais de 60 lixões foram fechados seguindo o mesmo modelo.
A lógica é simples: imagine que cada cidade pequena tivesse que construir seu próprio hospital de alta complexidade — seria caro demais. Com os aterros sanitários regionais, várias cidades dividem os custos de uma estrutura moderna e ambientalmente correta. Mas há um desafio: montar e operar um aterro sanitário custa caro, e muitos municípios não têm recursos.
A tarifa do lixo e o novo modelo de negócio
Um dos principais obstáculos sempre foi a falta de uma fonte de receita garantida. No Brasil, diferentemente de países como Alemanha e Japão, não havia tarifa específica para a coleta e tratamento de lixo. Isso mudou com o marco legal do saneamento de 2020, que obrigou os municípios a criarem essa cobrança para dar sustentabilidade financeira ao setor.
Com a questão do financiamento equacionada, os aterros sanitários passam a ser vistos como indústrias. Eles produzem biogás (gás gerado pela decomposição do lixo orgânico), biometano (versão purificada do biogás que pode substituir o diesel) e energia elétrica. Segundo Luciano Basto, pesquisador da EPE e colaborador da Coppe/UFRJ, a cada 1 quilo de metano queimado se evita a emissão de 28 quilos de CO2 — um benefício climático significativo.
Biometano: a alternativa ao diesel importado
O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome. Se o biometano produzido nos aterros sanitários fosse usado prioritariamente para abastecer as frotas de serviço público (que representam 10% do consumo total de diesel), o país reduziria significativamente suas importações de combustíveis fósseis. Com a alta do petróleo devido à guerra no Oriente Médio, essa alternativa ganha ainda mais relevância econômica.
A Lei do Combustível do Futuro, que estabeleceu um programa de descarbonização da cadeia do gás natural, estimula o mercado de biometano. A Gás Verde, líder em biometano na América Latina, já produz 160 mil metros cúbicos diários do combustível renovável e pretende alcançar 650 mil m³/dia até 2029. A empresa atende clientes como Nestlé, Ambev e Stellantis.
Casos práticos: Rio e Ceará
No Rio de Janeiro, a Regenera Rio (antiga Ciclus Ambiental, comprada pela Aegea) recebe cerca de 10 mil toneladas de resíduos por dia. A Comlurb, responsável pela limpeza urbana da capital, terá uma centena de novos caminhões abastecidos com biometano produzido pela Gás Verde a partir do lixo da própria cidade. É como se o lixo do Rio alimentasse os caminhões que coletam o próprio lixo — um ciclo virtuoso.
No Ceará, a Aegea venceu leilão para assumir a gestão de resíduos em nove municípios da região do Cariri. O projeto vai contribuir para o fechamento de nove lixões e prevê a entrada de outras cidades, com a tarifa regulamentada garantindo a sustentabilidade financeira.
O custo dos lixões para a saúde
Enquanto a transição não se completa, os lixões seguem causando danos. Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da FGV, explica que o chorume (líquido altamente poluente gerado pela decomposição do lixo) contamina o solo e os lençóis freáticos, tornando a água imprópria para consumo. Em 2024, o Brasil registrou 344,4 mil internações por doenças provocadas por saneamento inadequado, segundo o Instituto Trata Brasil.
As crianças entre 0 e 4 anos representaram 70 mil dessas internações (20% do total), e os idosos acima de 60 anos, 80,9 mil (23,5%). Os mais vulneráveis são os catadores informais, que trabalham diretamente nos lixões, expostos a metais pesados, gases tóxicos e vetores de doenças como ratos e mosquitos.
📊 Número do Dia
R$ 820 milhões , Valor aprovado pelo BNDES para o setor de resíduos sólidos nos últimos dois anos, oito vezes mais que nos cinco anos anteriores
Por que isso importa
Para o cidadão, a regionalização dos aterros significa menos lixões, menos doenças e ar mais limpo. Para as empresas, abre um mercado bilionário em biometano, energia e reciclagem. Para o país, representa redução nas importações de diesel, menos emissões de gases de efeito estufa e cumprimento de compromissos climáticos internacionais. Com a tarifa do lixo regulamentada, o modelo finalmente tem sustentabilidade financeira para se expandir.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/30/biometano-biogas-e-eletricidade-aterros-sanitarios-sao-industrias-de-energia.ghtml












