O Brasil enfrenta um problema de segurança energética que a guerra no Irã escancarou: o país não produz combustível suficiente para atender sua própria demanda. Segundo José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, o Brasil importa entre 20% e 30% do diesel consumido internamente — o combustível que move caminhões, ônibus e máquinas agrícolas. A dependência externa deixa o país vulnerável a choques de preço no mercado internacional, como o atual conflito que fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do petróleo transportado por mar no mundo.
O problema tem raízes históricas. De 1980 a 2014, o Brasil não construiu nenhuma refinaria nova. A Petrobras tinha planos de erguer cinco unidades, mas concluiu apenas uma — a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, inaugurada em 2014. Após a operação Lava Jato, os projetos de expansão do refino foram interrompidos. Para piorar, nos governos Temer e Bolsonaro, as refinarias da Petrobras reduziram sua operação para 50% da capacidade, abrindo espaço para importadores privados. Mesmo operando hoje a 93% da capacidade — próximo do limite técnico —, o parque de refino brasileiro não consegue suprir o mercado interno.
O novo mapa do petróleo
A guerra está redesenhando o comércio global de petróleo. Com o Irã controlando o Estreito de Ormuz e exigindo pagamento em yuans (a moeda chinesa) para permitir a passagem de navios, o peso do Oriente Médio no mercado global tende a diminuir. Segundo Gabrielli, em entrevista à Agência Brasil, três países ganham relevância: Brasil, Canadá e Guiana. Juntos, eles devem adicionar 1,2 milhão de barris por dia ao mercado em 2027. O petróleo brasileiro, em particular, é ideal para as grandes refinarias chinesas — o Brasil já é o terceiro maior exportador de petróleo para a China.
A título de comparação, os Estados Unidos — maior produtor mundial — têm capacidade de refino robusta e são praticamente autossuficientes em combustíveis. O Brasil, ao contrário, exporta petróleo bruto e importa diesel refinado, uma equação que encarece o custo final e expõe o país a turbulências externas.
Importadores especulativos
Desde o governo Temer, quase 300 empresas foram autorizadas a importar combustíveis no Brasil. Mas, segundo Gabrielli, esses importadores atuam de forma especulativa: só trazem diesel de fora quando o preço internacional está mais barato que o nacional. “É preciso aumentar o preço doméstico para justificar a importação”, afirmou o ex-presidente da Petrobras. Isso significa que, em momentos de crise — como agora —, o mecanismo que deveria equilibrar o mercado acaba pressionando os preços para cima.
Construir uma refinaria leva cinco anos. Em momentos de crise, a única saída de curto prazo envolve políticas de preço — como a decisão do governo Lula de zerar impostos e subsidiar o diesel para conter a alta, medida adotada em março de 2026, conforme noticiado pela Agência Brasil.
Transição energética em xeque
O choque do petróleo pode, paradoxalmente, acelerar a transição energética no longo prazo. Gabrielli, que lançou recentemente o livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro, argumenta que o hidrogênio verde (produzido a partir de fontes renováveis, como energia solar ou eólica) pode substituir combustíveis fósseis na indústria pesada, siderurgia, aviação e transporte de carga. Mas a tecnologia só se viabiliza com políticas de demanda — incentivos para que empresas adotem o novo combustível. A previsão é que o hidrogênio verde domine o mercado por volta de 2035. “Para que isso aconteça, as decisões têm que começar a ser tomadas agora”, disse Gabrielli.
📊 Número do Dia
20% a 30% — Fatia do diesel consumido no Brasil que vem de importações, expondo o país a choques externos de preço
Por que isso importa
Para o cidadão, a dependência de diesel importado significa preços mais altos e voláteis no transporte e nos alimentos — já que caminhões movem a logística do país. Para empresas, a insegurança energética eleva custos e reduz previsibilidade. Para o investidor, o setor de refino e energia renovável (como hidrogênio verde) ganha relevância estratégica em um cenário de reconfiguração global do mercado de petróleo.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/guerra-expoe-risco-energetico-do-brasil-diz-ex-chefe-da-petrobras












