O déficit primário — que representa o resultado negativo das contas do governo sem contar o pagamento de juros da dívida pública — praticamente dobrou em relação à estimativa inicial. É como se o Brasil tivesse um orçamento doméstico: o déficit primário mostra quanto a família gastou a mais do que ganhou no mês, sem incluir os juros do cartão de crédito ou empréstimos. Segundo o Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas, a nova previsão considera principalmente o pagamento de precatórios (dívidas judiciais que o governo é obrigado a pagar) e alguns gastos com defesa, saúde e educação que ficam fora da meta fiscal.
Apesar do déficit total de R$ 59,8 bilhões, o governo prevê superávit primário de R$ 3,5 bilhões ao excluir os precatórios e as exceções do arcabouço fiscal. O superávit primário é o oposto do déficit: representa a economia que o governo faz para pagar os juros da dívida pública. Por causa dessa previsão positiva, o governo não contingenciou (cortou) verbas do Orçamento deste ano, apenas bloqueou R$ 1,6 bilhão para cumprir os limites de gastos do arcabouço fiscal — a regra que estabelece quanto o governo pode gastar a cada ano.
O que pressionou as contas
O relatório prevê queda de R$ 13,7 bilhões nas receitas líquidas em relação ao Orçamento aprovado, enquanto as despesas totais aumentaram R$ 23,3 bilhões. Do lado das receitas (o dinheiro que entra nos cofres públicos), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Confins, um tributo que empresas pagam sobre o faturamento) caiu R$ 13,5 bilhões, e o Imposto de Importação recuou R$ 6,8 bilhões por causa da queda do dólar. A única boa notícia veio dos royalties do petróleo, que subiram R$ 16,7 bilhões com a alta do preço do barril após o início da guerra no Oriente Médio.
Nas despesas, os créditos extraordinários (gastos emergenciais autorizados fora do Orçamento normal) subiram R$ 15,9 bilhões, enquanto benefícios da Previdência Social aumentaram R$ 1,6 bilhão e o Benefício de Prestação Continuada (BPC, pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda) cresceu R$ 1,9 bilhão. Esses são gastos obrigatórios — o governo não pode simplesmente decidir não pagá-los, diferentemente de despesas discricionárias como obras públicas ou compra de equipamentos.
Comparação internacional
A título de comparação, o déficit primário brasileiro de cerca de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo que o país produz) é relativamente moderado. Os Estados Unidos, por exemplo, registraram déficit primário superior a 6% do PIB em 2025, segundo dados do Fundo Monetário Internacional. A diferença é que países desenvolvidos conseguem financiar déficits maiores com juros mais baixos, enquanto o Brasil paga uma das taxas de juros reais (descontada a inflação) mais altas do mundo.
📊 Número do Dia
R$ 59,8 bilhões — Novo valor previsto para o déficit primário de 2026, o dobro da estimativa inicial de R$ 29,5 bilhões
Por que isso importa
Para o cidadão, um déficit primário maior significa que o governo está gastando mais do que arrecada, o que pode levar ao aumento da dívida pública e, consequentemente, a juros mais altos — encarecendo financiamentos, empréstimos e até o crédito para consumo. Para o investidor, a piora nas contas públicas pode pressionar os títulos do Tesouro e afetar a confiança no país. Para as empresas, juros elevados encarecem investimentos e expansão. A boa notícia é que, ao excluir despesas extraordinárias, o governo ainda prevê cumprir a meta fiscal, evitando cortes mais drásticos no Orçamento.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/com-precatorios-previsao-de-deficit-primario-sobe-para-r-598-bi












