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Brasil e China buscam novo patamar em relação bilateral

Países discutem superação do modelo tradicional de commodities por manufaturados e enfrentam desafios burocráticos para ampliar investimentos
Dois executivos de terno fazem aperto de mãos em sala de reunião corporativa com vista urbana, negócios bilaterais
Autoridades e empresários dos dois países reuniram-se em Xangai para discutir como aprofundar a cooperação econômica em um cenário global marcado por tensões comerciais e fragmentação geopolítica. O evento, organizado pelo Valor Econômico, reuniu mais de 200 participantes.

O Brasil e a China estão em um ponto de inflexão em sua relação econômica. Durante o Summit Valor Brazil-China 2026, realizado em Xangai, autoridades e empresários dos dois países debateram como ir além da tradicional troca de commodities brasileiras por produtos manufaturados chineses. A ideia é aprofundar a cooperação em áreas como transição energética (a mudança para fontes de energia mais limpas), inteligência artificial, logística e saúde — setores que exigem maior integração produtiva entre as duas economias.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, mas a relação ainda é bastante concentrada. Cerca de 75% das exportações brasileiras para a China se resumem a três produtos: soja, petróleo bruto e minério de ferro, segundo o embaixador do Brasil na China, Marcos Galvão. É como se o Brasil vendesse sempre os mesmos itens para o mesmo cliente — uma situação que deixa o país vulnerável a oscilações de preço e demanda. Enquanto isso, a pauta chinesa se diversificou com avanços tecnológicos, incluindo eletrônicos, veículos elétricos e equipamentos de alta tecnologia.

O embaixador destacou que o Brasil quer atrair investimentos chineses que não apenas atendam ao mercado interno brasileiro, mas que transformem o país em uma plataforma de exportação de produtos manufaturados (bens industrializados, como carros e eletrônicos). A BYD, montadora chinesa de veículos elétricos, é um exemplo: após crescer rapidamente no mercado brasileiro, agora produz carros na Bahia. Esse tipo de investimento ajuda o Brasil a revitalizar sua indústria, que perdeu espaço nas últimas décadas.

Obstáculos ao investimento chinês no Brasil

Apesar das oportunidades, empresários chineses apontaram barreiras significativas no ambiente de negócios brasileiro. Chen Weijing, vice-diretora da agência comercial de Hangzhou, comparou: em sua cidade, abrir uma empresa leva apenas 25 minutos — no Brasil, o processo é muito mais longo e burocrático. Li Shiseng, vice-presidente do Power China Internacional Group, criticou a complexidade tributária brasileira, afirmando que a variedade de impostos e a possibilidade de penalizações pesadas afastam investimentos estrangeiros.

A título de comparação, o Brasil ocupa a 124ª posição no ranking Doing Business do Banco Mundial (que mede a facilidade de fazer negócios), enquanto a China está na 31ª posição. Essa diferença reflete diretamente na capacidade de atrair capital produtivo. Para os chineses, a burocracia brasileira funciona como um pedágio caro e imprevisível: mesmo empresas bem-intencionadas podem ser penalizadas por erros em meio a regras complexas.

Oportunidades em setores estratégicos

O setor farmacêutico foi destacado como área com grande potencial de cooperação. Letícia Frazão Leme, ministra-conselheira da embaixada brasileira em Pequim, explicou que a China hoje responde por 30% dos ensaios clínicos globais (testes de novos medicamentos em humanos), contra 36% dos Estados Unidos. Em 2018, os chineses tinham apenas 8%, frente a 47% dos americanos. O Brasil representa cerca de 2% desses estudos e busca dobrar essa participação — o que permitiria acesso mais rápido e barato a novos medicamentos.

No agronegócio, Alexandre Guimarães, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), defendeu que o Brasil migre de um modelo de expansão (desmatar para plantar mais) para um de intensificação produtiva (produzir mais na mesma área). Ele citou dados científicos mostrando que a soja pode ser até 20% mais produtiva quando plantada a até 100 metros de uma floresta preservada. Isso significa que preservar o meio ambiente não é apenas uma questão ética, mas também uma estratégia econômica inteligente.

Contexto geopolítico favorece bilateralismo

O enfraquecimento do multilateralismo (cooperação entre vários países por meio de instituições internacionais) e as tensões comerciais globais — especialmente envolvendo os Estados Unidos — criam espaço para que Brasil e China estreitem laços bilaterais. Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo, afirmou que o Brasil pode se consolidar como um hub (centro de distribuição) para a indústria chinesa na América Latina. Marcos Caramuru, ex-embaixador do Brasil na China, resumiu: “Ainda há espaço para cooperação, desde que os países saibam construir confiança, ter foco e perseverância.”

A China mantém mais de 3,1 mil acordos de cidades-irmãs com 152 países, sendo 64 com o Brasil — um instrumento de cooperação que pode ser ampliado para facilitar negócios e intercâmbio tecnológico em nível regional, segundo Shen Xin, vice-presidente da Associação de Amizade da China com Países Estrangeiros.

📊 Número do Dia

75% , das exportações brasileiras para a China concentram-se em apenas três produtos: soja, petróleo e minério de ferro

Por que isso importa

Para o cidadão, uma relação mais diversificada com a China pode significar acesso mais rápido e barato a medicamentos e tecnologias. Para as empresas, investimentos chineses em manufatura podem gerar empregos industriais e aumentar a competitividade brasileira. Para o investidor, setores como infraestrutura, energia limpa e tecnologia ganham protagonismo, reduzindo a dependência excessiva de commodities e tornando a economia mais resiliente a choques externos.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/25/tensoes-geopoliticas-e-incertezas-comerciais-abrem-espaco-para-ampliar-relacoes-brasil-china.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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