O Brasil avança lentamente na estruturação de políticas climáticas estaduais, mas ainda está longe do necessário para enfrentar a emergência climática. Segundo o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas — produzido pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS) e pelo Centro Brasil no Clima (CBC) —, apenas quatro estados possuem Planos de Ação Climática (Plac) completos, que integram tanto metas de mitigação (redução de emissões de gases de efeito estufa, os GEE) quanto de adaptação (preparação para desastres como secas e enchentes).
Por outro lado, outros cinco estados — Bahia, Alagoas, Rio Grande do Sul, Sergipe e Ceará — anunciaram a elaboração de seus planos durante ou após a COP 30. Da mesma forma, São Paulo e o Distrito Federal possuem planos separados por temas. Portanto, a fragmentação das políticas climáticas reflete uma “grande desigualdade na agenda climática entre os estados brasileiros”, segundo William Wills, diretor técnico do CBC.
O custo da inação
Em 2024, o Brasil registrou 4.699 desastres climáticos — o ano mais severo da década —, com prejuízos estimados em R$ 38 bilhões. Esses eventos incluem estiagens (27% do total), chuvas intensas (27%) e incêndios (24%). Visto que os investimentos em infraestrutura são insuficientes, para Thais Ferraz, diretora programática do ICS, os investimentos em infraestrutura e planejamento são menores que as perdas causadas pela falta de ação. “Quando a gente compara esse anuário com a edição anterior, tem sim uma melhora dos estados, mas não na mesma medida que a gente tem o avanço desses desastres”, afirmou.
A título de comparação, países europeus como a Alemanha e a Holanda investem há décadas em infraestrutura de adaptação climática — como sistemas de drenagem urbana e barreiras contra inundações —, e, por conseguinte, conseguiram reduzir significativamente os prejuízos com desastres naturais, mesmo enfrentando eventos extremos crescentes.
O desafio das metas brasileiras
O Brasil se comprometeu, no Acordo de Paris, a reduzir entre 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035, em relação aos níveis de 2005, e atingir a neutralidade climática até 2050. Ou seja, neutralidade climática significa que a quantidade de gases emitidos será igual à quantidade absorvida por florestas e outras formas de captura de carbono — como se o país zerasse sua “pegada” de poluição atmosférica.
O Plano Clima, lançado pelo governo federal em 16 de março, estabelece o caminho para essas metas. No entanto, a implementação depende dos estados. O setor de transportes, por exemplo, emitiu 221 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2024, com o modal rodoviário (caminhões e carros) respondendo por mais de 90% das emissões na maioria dos estados. De fato, imagine que cada brasileiro dirigisse um carro velho e poluente todos os dias — o impacto seria parecido com o que vemos hoje na dependência do transporte rodoviário.
Além disso, outro desafio está no setor de resíduos (lixo). Sua participação nas emissões nacionais subiu de 3,8% em 2015 para 4,5% em 2024, principalmente pelo aumento urbano, populacional e de consumo. Ao mesmo tempo, o Brasil possui 58 milhões de hectares de pastagens degradadas prontas para conversão sustentável — uma área maior que a França inteira.
Financiamento: o nó da questão
Uma das principais dificuldades apontadas pelo Anuário é a falta de orçamento próprio para ações climáticas. Por isso, muitos estados vêm formando consórcios, como na Amazônia e no Nordeste, para facilitar o acesso a recursos de bancos multilaterais. Além do financiamento público, é preciso buscar mecanismos de recursos privados, explica Ferraz.
Ela também destaca a necessidade de incluir a dimensão climática em grandes obras e licitações. “Se você está falando de fiação subterrânea, é caro. Agora, qual é o custo de ficar sem energia por tantos dias, em várias áreas de São Paulo?”, questiona. Dessa forma, soluções baseadas na natureza — como preservação de manguezais, reflorestamento e aumento de áreas verdes urbanas — são alternativas mais baratas e eficazes que grandes obras de concreto.
📊 Número do Dia
R$ 38 bilhões , Prejuízos causados por 4.699 desastres climáticos no Brasil em 2024, o ano mais severo da década
Por que isso importa
Para o cidadão, a falta de planos climáticos estaduais significa maior vulnerabilidade a desastres como enchentes, secas e incêndios, que destroem casas, interrompem serviços e encarecem alimentos. Para empresas, a ausência de políticas claras dificulta investimentos de longo prazo em infraestrutura resiliente e aumenta custos operacionais com interrupções. Finalmente, para investidores, estados sem governança climática representam maior risco, enquanto aqueles com planos estruturados atraem recursos de fundos ESG e bancos multilaterais.
Fonte original: <a href="https://oglobo.globo.com/brasil/meio-ambiente/noticia/2026/03/18/somente-quatro-e












