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Tesouro recompra R$ 36,6 bi em títulos para conter crise nos juros

Operação emergencial de dois dias busca restaurar liquidez após disparada das taxas provocada por tensões no Oriente Médio
Balança da justiça dourada sobre mesa com mão segurando corda, simbolizando equilíbrio no mercado financeiro
O Tesouro Nacional recomprou R$ 36,6 bilhões em títulos públicos em apenas dois dias, em operação emergencial para conter a volatilidade nos juros futuros. A intervenção, a primeira desde dezembro de 2024, ocorre após as taxas dispararem mais de 40 pontos-base na sexta-feira.

O Tesouro Nacional realizou uma intervenção de emergência no mercado de títulos públicos, recomprando R$ 36,6 bilhões em apenas dois dias. Dessa forma, a operação, fora do calendário regular, busca restaurar a liquidez — ou seja, a capacidade de comprar e vender títulos sem grandes oscilações de preço — e conter a volatilidade nas taxas de juros. É como se o governo entrasse no mercado para comprar de volta seus próprios papéis, reduzindo a quantidade em circulação e acalmando os preços.

Na segunda-feira, o Tesouro recomprou R$ 27,5 bilhões: cerca de R$ 12,1 bilhões em títulos prefixados (aqueles que pagam uma taxa fixa definida na compra) e R$ 15,4 bilhões em papéis atrelados à inflação. Em seguida, nesta terça-feira, a instituição manteve a estratégia e recomprou mais R$ 9,05 bilhões, segundo informações do jornal O Globo.

O que provocou a crise

A decisão ocorre após um episódio de estresse no mercado, quando os juros futuros — que refletem as expectativas dos investidores sobre a taxa básica de juros (Selic) — dispararam mais de 40 pontos-base na sexta-feira. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual; portanto, 40 pontos-base representam uma alta de 0,40 ponto percentual. De fato, o gatilho foi o aumento das tensões no Oriente Médio, que elevou os preços do petróleo e alterou rapidamente as expectativas para a política monetária brasileira.

“O mercado mostrou preços descolando muito dos fundamentos domésticos por conta da deterioração do ambiente global”, afirmou à Bloomberg Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Pine. Por outro lado, a estratégia do Tesouro foi considerada positiva pelos analistas, ajudando a aliviar a pressão sobre os juros futuros.

Comparação internacional

Intervenções desse tipo não são incomuns em economias emergentes. A título de comparação, o Tesouro dos Estados Unidos também realiza operações de recompra (conhecidas como “buybacks”), mas geralmente de forma programada e em volumes menores relativos ao tamanho do mercado. No entanto, no Brasil, a volatilidade tende a ser maior devido à sensibilidade do país a choques externos, como conflitos geopolíticos e oscilações no preço de commodities.

Por volta das 12h13 de terça-feira, os contratos de Depósitos Interfinanceiros (DI) — que funcionam como termômetros das expectativas para os juros — caíam de forma generalizada. Assim, os vencimentos para janeiro de 2027 recuavam de 14,07% para 14,02%, enquanto os de 2029 passavam de 13,55% para 13,48% e os de 2031, de 13,72% para 13,66%.

Impacto na política monetária

A turbulência alterou as projeções dos analistas para a reunião do Banco Central, prevista para quarta-feira. Anteriormente, parte do mercado esperava um corte de 0,50 ponto percentual na Selic, atualmente em 15% — o maior nível em duas décadas. Agora, contudo, há quem veja espaço apenas para um corte de 0,25 ponto ou até mesmo a manutenção da taxa.

Para Camilo Cavalcanti, da Oby Capital, o movimento ocorre em meio a distorções provocadas tanto por fatores técnicos quanto pelo cenário externo. “Havia muitas apostas na queda dos juros, o que deixou o mercado vulnerável. Com a alta recente das taxas, influenciada pela guerra, as expectativas mudaram”, disse à Bloomberg. Por conseguinte, ao recomprar títulos, o Tesouro reduz riscos e ajuda a estabilizar o mercado, especialmente após um período de maior exposição dos investidores às oscilações das taxas.

📊 Número do Dia

R$ 36,6 bilhões , Volume recomprado pelo Tesouro Nacional em apenas dois dias para conter volatilidade nos juros

Por que isso importa

A intervenção do Tesouro afeta diretamente o bolso do cidadão e as decisões de investimento. De fato, juros mais baixos significam crédito mais barato para financiamentos e empréstimos, além disso, estimulam o consumo e o investimento produtivo. Para quem investe em renda fixa, em contrapartida, a queda nas taxas futuras reduz a rentabilidade esperada de novos títulos. Da mesma forma, as empresas também se beneficiam, pois o custo de captação de recursos diminui, facilitando expansões e contratações. Finalmente, a estabilização do mercado é essencial para evitar que choques externos contaminem a economia real.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/financas/noticia/2026/03/17/juros-futuros-caem-apos-nova-atuacao-do-tesouro-para-conter-estresse-nas-taxas.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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