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segunda-feira, 27 de julho de 2026 Brasil

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IA não causa desemprego em massa, diz Nobel de Economia

O temor de desemprego em massa provocado pela inteligência artificial (IA) não se confirma nos dados macroeconômicos, segundo o Nobel de Economia Christopher Pissarides. O especialista apresentou a análise durante a 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), no Rio de Janeiro.

Nobel de Economia afirma que IA não causa desemprego em massa, mas alerta para concentração regional de investimentos e precarização salarial em setores essenciais.

A inteligência artificial tem funcionado muito mais como ferramenta de assistência ao trabalhador do que como substituta de emempregos, segundo Christopher Pissarides, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010. Para entender: a IA seria como uma calculadora avançada que ajuda o profissional a trabalhar melhor, não como um robô que toma seu lugar.

Durante palestra no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, Pissarides explicou que os casos de demissões em massa por automação — especialmente em empresas de tecnologia — ganham grande publicidade, mas representam uma fração mínima do mercado de trabalho global. “Se você olhar para o quadro geral da macroeconomia, essas coisas são muito, muito pequenas”, afirmou o economista.

Setores tradicionais como construção civil registram aumento na demanda por trabalhadores, segundo Pissarides. Além disso, a própria IA cria novas profissões: especialistas em segurança de dados, manutenção de robôs, análise de informações geradas por algoritmos. É como quando os caixas eletrônicos surgiram nos bancos — em vez de acabar com empregos, criaram novas funções como gerentes de relacionamento e analistas de crédito.

Quem precisa se atualizar e quem está protegido

Profissionais que trabalham diretamente com tecnologia precisam se reciclar com mais frequência, segundo pesquisa liderada por Pissarides. O estudo analisou a probabilidade de um trabalhador necessitar de novos treinamentos após oito anos no mesmo cargo. A conclusão: quanto mais tecnológica a função, maior a urgência de aprendizado contínuo.

Por outro lado, profissões ligadas à educação e ao cuidado humano — como professores e enfermeiros — não registraram mudanças drásticas nas habilidades exigidas após quase uma década. O problema dessas carreiras “imunes” à automação, porém, é outro: a precarização salarial.

Como essas profissões dependem do contato humano e não conseguem aumentar a produtividade via algoritmos (um enfermeiro não atende o dobro de pacientes porque existe IA), seus salários tendem a estagnar. “Eles têm que depender de dinheiro do governo. E se o governo não tiver dinheiro, eles não serão pagos, o que é a coisa mais triste”, alertou o Nobel.

Concentração geográfica preocupa mais que desemprego

Cerca de 60% dos investimentos em IA concentram-se em grandes metrópoles e polos de elite, como o eixo Londres-Oxford-Cambridge, no Reino Unido, segundo dados apresentados por Pissarides. Essa hiperconcentração cria uma divisão econômica regional severa, deixando o interior e áreas periféricas à margem do desenvolvimento.

A título de comparação, fenômeno semelhante ocorre no Brasil: segundo dados públicos do IBGE, a região Sudeste concentra historicamente cerca de 55% do PIB nacional, enquanto o Nordeste responde por apenas 14%, apesar de abrigar 27% da população. A IA pode aprofundar esse tipo de desigualdade regional se não houver políticas públicas de descentralização dos investimentos em tecnologia.

Para Pissarides, a melhor estratégia educacional não é a especialização precoce em códigos técnicos específicos, mas sim “aprender a aprender” — combinando ciências exatas com sólida base em ciências sociais e humanidades. É como ensinar alguém a pescar em vez de dar o peixe: mais importante que dominar uma linguagem de programação que pode ficar obsoleta em cinco anos é desenvolver capacidade de adaptação.

Brasil na fronteira do conhecimento

A 25ª Conferência da SAET reúne no Rio de Janeiro até sábado (18) alguns dos principais nomes da economia mundial, incluindo James Heckman (Nobel 2000) e Lars Peter Hansen (Nobel 2013). O evento homenageia os 80 anos do economista brasileiro Aloísio Araujo, pesquisador emérito do IMPA e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

“O formato presencial do evento permite que pesquisadores se encontrem em diferentes momentos e compartilhem ideias sobre a produção científica. Isso possibilita a discussão direta de artigos que ainda não foram publicados, aproxima o Brasil da fronteira do conhecimento científico atual”, afirmou Araujo.

📊 Número do Dia

60% — dos investimentos em inteligência artificial concentram-se em grandes metrópoles e polos de elite, segundo pesquisa de Christopher Pissarides

Por que isso importa

Para o trabalhador brasileiro, a mensagem é dupla: o medo de desemprego em massa por IA é exagerado, mas a necessidade de atualização constante é real — especialmente em funções tecnológicas. Para empresas, o recado é investir em treinamento contínuo em vez de cortes. E para formuladores de política pública, o desafio urgente não é proteger empregos da automação, mas garantir que os ganhos de produtividade da IA não fiquem concentrados apenas nas capitais e que profissões essenciais como saúde e educação tenham remuneração digna, mesmo sem ganhos de produtividade via tecnologia.


Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-07/nobel-da-economia-diz-que-impacto-da-ia-no-emprego-e-superestimado