As stablecoins (criptomoedas que mantêm valor fixo, como se fossem dólares ou reais digitais) dominaram o mercado brasileiro de criptoativos em 2025, respondendo por 80% do volume negociado. Segundo dados da Receita Federal, entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, foram declarados aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda de criptoativos. Desse total, cerca de R$ 1,13 trilhão (71,7%) correspondeu às stablecoins.
Para entender o que são stablecoins, imagine uma moeda digital que funciona como um vale-refeição: ela sempre vale o mesmo em reais, não sobe nem desce de preço. Diferentemente do bitcoin, que pode valer R$ 300 mil hoje e R$ 250 mil amanhã, uma stablecoin atrelada ao dólar busca sempre valer US$ 1. Essa estabilidade explica por que esses ativos se tornaram populares para transferências internacionais e proteção contra a volatilidade (oscilação de preços) de outras criptomoedas.
Da margem ao centro do mercado
A transformação foi rápida. Em 2019, as stablecoins representavam apenas 3,5% do volume mensal declarado de criptoativos no Brasil. A participação saltou para 79,7% em 2022 e atingiu 91,5% em 2023, com pico de 94,3% em julho daquele ano. Nos anos de 2024 e 2025, mesmo com a valorização de outros criptoativos, a participação das stablecoins permaneceu entre 76% e 80%.
O volume financeiro também cresceu significativamente. Em novembro de 2025, as operações declaradas com stablecoins atingiram R$ 39,7 bilhões — o maior valor mensal da série histórica. Ao longo do período analisado, foram registradas 185,7 milhões de operações de compra e venda envolvendo esses ativos.
USDT concentra quase 90% do mercado
Entre as stablecoins negociadas, a USDT (emitida pela empresa Tether e atrelada ao dólar americano) concentra quase nove em cada dez reais movimentados nesse segmento. Segundo a Receita, a moeda respondeu por 88,7% de todo o volume declarado entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, equivalente a aproximadamente R$ 1 trilhão. Na sequência aparecem a USDC, também vinculada ao dólar, com 7,1%, e a BRZ, stablecoin lastreada em real, com 3,4%.
A título de comparação, nos Estados Unidos, as stablecoins também ganharam relevância, mas com perfil diferente: lá, são usadas principalmente para negociação entre criptomoedas em exchanges (plataformas de compra e venda). No Brasil, segundo especialistas do mercado, parte significativa do uso está relacionada a remessas internacionais e proteção cambial — uma forma de dolarizar patrimônio digitalmente.
Nova fiscalização a partir de julho
A mudança no perfil do mercado ocorre às vésperas da entrada em vigor da DeCripto, nova plataforma de declaração de criptoativos instituída pela Receita Federal. A ferramenta se tornará obrigatória a partir de julho e alinha o Brasil ao padrão internacional de transparência da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Com a DeCripto, empresas estrangeiras que oferecem serviços de criptoativos a brasileiros também passarão a ter obrigação de informar operações realizadas com clientes no País. A Receita destaca que parte relevante das operações com stablecoins ocorre por meio de prestadoras sediadas no exterior. A exigência alcança tanto empresas estabelecidas no Brasil quanto plataformas estrangeiras que atuem no mercado nacional, conforme previsto na Lei nº 14.754/2023.
Segundo a Receita Federal, a adoção desse padrão busca ampliar o controle sobre operações com ativos digitais, fortalecendo o combate à evasão de divisas (saída ilegal de dinheiro do país), à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades criminosas. A obrigação de prestar informações é independente da existência de tributos a pagar.
📊 Número do Dia
R$ 1,13 trilhão — Volume em stablecoins declarado à Receita Federal entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, representando 71,7% de todas as operações com criptoativos no período
Por que isso importa
Para o cidadão, a predominância das stablecoins indica que o mercado cripto brasileiro está menos focado em especulação e mais em uso prático — como enviar dinheiro para o exterior ou proteger-se da desvalorização do real. Para investidores e empresas, a nova obrigação de declaração via DeCripto aumenta a transparência, mas também a fiscalização: operações não declaradas podem resultar em multas. Para o governo, o alinhamento ao padrão da OCDE facilita o rastreamento de recursos e o combate à evasão fiscal, aproximando o Brasil das práticas dos países desenvolvidos.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-06/stablecoins-concentram-80-de-ativos-cripto-declarados-receita


