A UFRJ, primeira universidade do Brasil, enfrenta uma crise de infraestrutura que atinge quase a totalidade de seus prédios. Segundo o Programa de Avaliação de Reabilitação dos Bens Imóveis (REAB), 142 das 157 edificações avaliadas precisam de reformas, totalizando um investimento necessário de R$ 1,27 bilhão. Para contextualizar: esse montante representa o triplo do orçamento discricionário anual da universidade — os recursos destinados a despesas como manutenção, segurança, água e esgoto.
O levantamento classifica os prédios em seis categorias, de “novo” a “muito ruim”. Doze unidades receberam a pior avaliação, incluindo o Instituto de Matemática, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) e o edifício Jorge Machado Moreira, que sofreu um incêndio em 2016 e até hoje tem trechos interditados. Este último abriga a Escola de Belas Artes, com 2.800 alunos, e o Museu D. João VI, com acervo do século XIX. Estudantes relatam problemas como infiltrações, falta de ar-condicionado, mofo e fiação elétrica antiga — imagine estudar em salas fechadas, sem ventilação adequada, com professores dando aula em ambientes insalubres.
O peso da história
A idade avançada das construções agrava o problema: a maioria dos prédios tem mais de 40 anos, e os mais antigos foram erguidos entre 1850 e 1960. Muitas dessas edificações são tombadas como patrimônio histórico, o que encarece ainda mais as reformas, pois exigem técnicas especiais de restauração. O reitor Roberto Medronho explica que “por serem históricos, demandam investimentos altos”.
A título de comparação, universidades públicas em países desenvolvidos costumam destinar entre 2% e 4% de seu orçamento anual para manutenção preventiva de infraestrutura. No caso da UFRJ, o montante necessário para as reformas representa 312% do orçamento discricionário — uma conta que simplesmente não fecha sem ajuda externa.
A busca por soluções
O Ministério da Educação prometeu R$ 6,5 milhões para modernizar a rede elétrica do IFCS, mas o prédio precisa de R$ 32 milhões para resolver todos os problemas. A universidade também conseguiu outros R$ 6,5 milhões da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para recuperar a Faculdade de Letras com sustentabilidade energética. Segundo nota do MEC, foram investidos R$ 59,1 milhões na UFRJ nos últimos três anos via PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, iniciativa do governo federal para investimentos em infraestrutura).
O reitor propõe que parte dos recursos do próximo leilão de partilha do pré-sal — a venda de direitos de exploração de petróleo em águas profundas — seja destinada à universidade, que contribuiu com pesquisas fundamentais para a prospecção petrolífera no Brasil. “A ideia não é só ficar numa posição passiva, cobrando recursos do governo federal”, afirma Medronho.
📊 Número do Dia
R$ 1,27 bilhão , Valor necessário para recuperar 90,3% das edificações da UFRJ, equivalente a três vezes seu orçamento anual discricionário
Por que isso importa
A deterioração da infraestrutura universitária afeta diretamente a qualidade do ensino superior público no Brasil. Para os 70 mil alunos da UFRJ, significa estudar em ambientes inadequados, com riscos à saúde e segurança. Para o país, representa o sucateamento de uma instituição centenária responsável por pesquisas estratégicas — como as que viabilizaram a exploração do pré-sal — e pela formação de profissionais qualificados. O subfinanciamento crônico das universidades federais compromete não apenas a educação, mas a capacidade de inovação e desenvolvimento econômico do Brasil.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/05/23/levantamento-mostra-que-ufrj-precisa-de-r-127-bi-para-recuperar-90percent-de-seus-predios.ghtml












