O Brasil votou a favor de uma resolução histórica da ONU que obriga países a cumprirem compromissos climáticos, mesmo sob forte oposição dos Estados Unidos. O texto, aprovado na quarta-feira com 141 votos favoráveis (incluindo o brasileiro), 28 abstenções e apenas 8 contrários, se baseia em uma decisão da Corte Internacional de Justiça (CIJ) de 2025 que permite a judicialização de governos que ignoram medidas de proteção ao clima.
A resolução foi apresentada por Vanuatu, uma pequena nação do Oceano Pacífico ameaçada pelo aumento do nível do mar — imagine um país que pode literalmente desaparecer debaixo d’água por causa do aquecimento global. Segundo a CIJ, países negligentes com o meio ambiente poderão ser condenados a pagar reparações financeiras, e a omissão em controlar emissões “pode constituir um ato ilícito internacional”. É como se houvesse agora uma multa internacional para quem polui demais e não faz nada para mudar.
A pressão americana contra o texto
Os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, tentaram afundar a proposta nos bastidores. Em fevereiro, segundo a agência Associated Press, o Departamento de Estado americano enviou ordens às suas embaixadas afirmando que a decisão da CIJ “poderia representar uma grande ameaça para a indústria americana” — referência direta ao setor de petróleo e gás. A pressão foi tão intensa que um representante da Arábia Saudita chamou a proposta de “linha muito vermelha” em reunião a portas fechadas.
O texto final sofreu alterações para avançar, mas manteve pontos essenciais: a necessidade de limitar o aquecimento global em até 1,5°C (em comparação com a era pré-Revolução Industrial) e a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Para contextualizar, o planeta já aqueceu cerca de 1,1°C desde o século XIX, e cada décimo de grau adicional intensifica eventos climáticos extremos como secas, enchentes e furacões.
Uma aliança improvável contra o clima
A votação revelou uma curiosa aliança de oposição: EUA, Rússia, Irã, Israel, Bielorrússia, Iêmen, Libéria e Arábia Saudita votaram contra. São países que, em praticamente qualquer outro tema internacional, estariam em lados opostos — Washington e Moscou, por exemplo, mantêm relações tensas desde a Guerra Fria, e EUA e Irã são adversários históricos no Oriente Médio. O que os une aqui é o interesse econômico: todos são grandes produtores ou dependentes de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão — as principais fontes de energia que emitem gases causadores do aquecimento global).
A título de comparação, a União Europeia, que representa economias desenvolvidas com metas climáticas ambiciosas, votou em bloco a favor da resolução. O Brasil, que sediou a COP30 em Belém no ano passado e se posiciona como liderança climática entre emergentes, alinhou-se ao bloco majoritário. A posição brasileira reflete tanto compromissos internacionais quanto interesses domésticos: o país é vulnerável a eventos climáticos extremos (como as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024) e possui uma matriz energética relativamente limpa, com forte participação de hidrelétricas e biocombustíveis.
O que muda na prática
Embora a resolução seja não vinculante — ou seja, não obrigue legalmente os países a cumpri-la —, seus argumentos já estão sendo usados em decisões judiciais sobre questões climáticas ao redor do mundo. É como um precedente jurídico: mesmo sem força de lei imediata, influencia tribunais e negociações futuras. Ralph Regenvanu, ministro de Vanuatu, afirmou ao jornal britânico Guardian que “a manutenção do esclarecimento das obrigações existentes feito pela Corte é essencial para a credibilidade do sistema internacional”.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, saudou a aprovação: “Aqueles que menos contribuem para as mudanças climáticas estão pagando o preço mais alto. Essa injustiça precisa acabar”, escreveu na rede social X. A frase resume o dilema central: países pobres e insulares, que emitiram pouquíssimo carbono historicamente, sofrem os piores impactos do aquecimento causado por nações ricas e industrializadas.
📊 Número do Dia
141 votos , Países que apoiaram a resolução climática da ONU, incluindo o Brasil, contra apenas 8 votos contrários liderados pelos EUA
Por que isso importa
Para o Brasil, o voto a favor reforça a posição de liderança climática entre emergentes e protege interesses econômicos ligados à bioeconomia e energia limpa. Para empresas brasileiras, a resolução sinaliza que o mundo caminha para regras mais rígidas contra combustíveis fósseis, favorecendo investimentos em tecnologias verdes. Para o cidadão, significa maior pressão internacional para que o país cumpra metas de preservação ambiental — o que pode reduzir eventos climáticos extremos como secas e enchentes que afetam diretamente a vida cotidiana e os preços dos alimentos.












