A Acelen Renováveis anunciou um investimento de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,5 bilhões) para construir a maior biorrefinaria da América Latina. A unidade ficará em São Francisco do Conde, na Bahia, e produzirá querosene de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês — um combustível que emite até 80% menos carbono que o querosene tradicional) e diesel renovável (HVO, que funciona como o diesel comum, mas é feito de plantas e óleos usados, não de petróleo). A operação deve começar em 2029.
O financiamento virá de duas fontes: US$ 650 milhões do próprio Mubadala Capital, o fundo soberano dos Emirados Árabes que controla a Acelen, e US$ 850 milhões de um consórcio de bancos internacionais e brasileiros, incluindo BNDES, Bradesco, HSBC e instituições do Banco Mundial e do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. A principal matéria-prima será a macaúba, uma palmeira nativa do Cerrado brasileiro, complementada por óleo de soja e óleo de cozinha usado.
O projeto total soma US$ 3 bilhões (R$ 15 bilhões) e inclui o desenvolvimento de 144 mil hectares de plantações — uma área equivalente a cerca de 200 mil campos de futebol. Segundo Luiz de Mendonça, CEO da Acelen Renováveis, em entrevista ao jornal O Globo, cerca de 90% da produção futura já está vendida para parceiros na Europa, Estados Unidos e Brasil. “Será a maior planta de biorrefino da América Latina e vai posicionar o Brasil entre os principais polos globais de combustíveis sustentáveis”, afirmou o executivo.
Comparação internacional e contexto de mercado
O investimento coloca o Brasil na rota global de combustíveis sustentáveis, setor em rápida expansão. A título de comparação, a União Europeia estabeleceu metas obrigatórias para que 6% do combustível de aviação seja sustentável até 2030 — o que cria demanda garantida para produtos como o SAF. Nos Estados Unidos, incentivos fiscais federais tornam o diesel renovável competitivo mesmo com o petróleo acima de US$ 100 o barril, segundo dados públicos da Agência Internacional de Energia.
A Acelen Renováveis pertence ao mesmo grupo que controla a Refinaria de Mataripe (BA), comprada da Petrobras durante o governo Bolsonaro. Porém, as operações são separadas: a biorrefinaria não está integrada à refinaria de petróleo. Enquanto isso, a própria Petrobras também amplia investimentos em combustíveis renováveis, com projetos que somam R$ 26 bilhões em refinarias de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco.
O que muda para empresas e consumidores
Para o setor de aviação, o projeto representa uma alternativa concreta para reduzir emissões — companhias aéreas globais enfrentam pressão crescente de reguladores e investidores para descarbonizar. Para o agronegócio brasileiro, abre um novo mercado: a macaúba, antes subutilizada, pode se tornar uma cultura comercial relevante, gerando empregos no campo. Para o consumidor final, o impacto virá de forma indireta: combustíveis mais limpos ajudam o Brasil a cumprir metas climáticas internacionais, o que pode evitar barreiras comerciais futuras para produtos brasileiros exportados.
Mendonça afirmou que o cenário atual de preços do diesel no Brasil, controlado pela Petrobras e descolado das cotações internacionais, não afeta o projeto, pois os mercados são distintos. A empresa planeja replicar o modelo em mais quatro projetos no país, aproveitando a vantagem competitiva da integração com o agronegócio — algo que funciona como produzir o próprio combustível desde a semente, reduzindo custos de transporte e intermediários.
📊 Número do Dia
1 bilhão de litros/ano , Capacidade de produção de combustíveis sustentáveis da nova biorrefinaria da Acelen na Bahia, a maior da América Latina
Por que isso importa
O investimento de R$ 7,5 bilhões posiciona o Brasil como fornecedor global de combustíveis sustentáveis em um mercado que cresce rapidamente por exigências regulatórias na Europa e Estados Unidos. Para o país, significa diversificação da matriz energética, geração de empregos no campo com a macaúba e cumprimento de compromissos climáticos internacionais — fatores que podem evitar barreiras comerciais futuras. Para empresas de aviação e transporte, representa uma alternativa viável para reduzir emissões sem trocar frotas inteiras.












