O centro de São Paulo ganhará quatro painéis de LED gigantes, somando 2.000 m² de telas digitais, em um projeto batizado de Boulevard São João. A intervenção abrange 42 mil m² da Avenida São João, entre o Largo do Paissandu e a Praça Júlio Mesquita, e prevê o fechamento da via aos finais de semana para apresentações artísticas e feiras gastronômicas. A iniciativa será executada pela Fábrica de Bares, empresa que controla estabelecimentos tradicionais da região como Bar Brahma e Bar Léo.
Como contrapartida pela instalação dos telões, as empresas envolvidas investirão R$ 6 milhões em melhorias urbanas ao longo de três anos. Os recursos financiarão a reforma da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a recuperação da estátua Mãe Preta e do Relógio de Nichile, além de novo mobiliário urbano, iluminação e paisagismo. É como se a cidade trocasse o direito de instalar publicidade por uma reforma geral do bairro — um modelo de parceria público-privada focado em requalificação urbana.
Como funcionarão os painéis
Os painéis terão entre 300 m² e 1.000 m² cada e seguirão regras rígidas de conteúdo: 70% do tempo será destinado a divulgação cultural e institucional, enquanto apenas 30% ficará reservado às marcas patrocinadoras. Cada anúncio deverá durar no mínimo dez segundos, e ficam proibidas animações com movimento contínuo, alternância rápida de cores ou efeitos de flash — medidas para evitar poluição visual excessiva. A Fábrica de Bares estima contar com pelo menos dez empresas patrocinadoras por mês para viabilizar o projeto.
A proposta prevê que os telões sejam apagados às 23h, embora o prefeito Ricardo Nunes tenha sinalizado interesse em estender o horário de funcionamento. A ideia é que a avenida seja fechada aos veículos das 18h de sábado até as 23h de domingo, transformando o espaço em área de lazer e cultura. O projeto deve estar concluído até o final de setembro de 2026.
Comparação internacional
A referência à Times Square não é casual: o distrito de Manhattan, em Nova York, recebe cerca de 50 milhões de visitantes por ano e movimenta bilhões de dólares em turismo e comércio local. A título de comparação, cidades como Londres (Piccadilly Circus) e Tóquio (Shibuya) também adotaram modelos semelhantes de painéis digitais em áreas centrais, combinando publicidade com atração turística. A diferença é que, nesses casos, os telões funcionam 24 horas por dia, enquanto São Paulo optou por limitar o horário de operação.
A polêmica com a Lei Cidade Limpa
O projeto gerou debate por aparentemente conflitar com a Lei Cidade Limpa, aprovada em 2006 para eliminar a poluição visual na capital paulista. A legislação, considerada uma das mais restritivas do mundo, proibiu outdoors e limitou drasticamente a publicidade externa — transformando a paisagem urbana de São Paulo. Tanto Nunes quanto Tarcísio de Freitas defenderam que a lei prevê exceções para projetos culturais e que não há planos de expandir os painéis para outros bairros.
Regina Monteiro, presidente da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU) e considerada “mãe” da Lei Cidade Limpa, participou do anúncio e endossou o projeto. Ela chegou a dar um “puxão de orelha” público no prefeito quando ele sugeriu estender o horário de funcionamento dos telões além das 23h. A cena ilustra a tensão entre desenvolvimento econômico e preservação da paisagem urbana — um debate que deve se intensificar conforme o projeto avança.
Motivações políticas
Embora seja uma iniciativa da prefeitura, o governador Tarcísio de Freitas assumiu protagonismo midiático no projeto, inclusive publicando vídeo com inteligência artificial sobre o tema. Segundo aliados do governador, a requalificação do centro — que inclui também a construção de um novo centro administrativo e ações contra a cracolândia — será “utilizada à exaustão na campanha eleitoral”. O timing do anúncio, a poucos meses das eleições municipais, não passou despercebido.
📊 Número do Dia
R$ 6 milhões , Valor que as empresas investirão em melhorias urbanas no centro de São Paulo como contrapartida pela instalação dos painéis de LED
Por que isso importa
Para o cidadão paulistano, o projeto promete revitalizar uma área degradada do centro, com potencial para aumentar segurança e movimento comercial — embora haja risco de gentrificação. Para empresas, abre uma nova vitrine publicitária em área de grande circulação, estimada em milhões de visualizações mensais. Para investidores do setor imobiliário e de turismo, sinaliza valorização de imóveis e negócios na região central, seguindo padrão observado em outras metrópoles globais que adotaram modelos semelhantes.












