A quantidade de riqueza não tributada escondida em paraísos fiscais pelo 0,1% mais rico supera toda a riqueza da metade mais pobre da humanidade. Segundo análise da Oxfam divulgada no contexto dos dez anos do escândalo Panama Papers, esse grupo seleto mantém US$ 3,55 trilhões ocultos em contas offshore (empresas registradas no exterior para dificultar o rastreamento de seus verdadeiros donos) e não declaradas. Para dimensionar: esse valor supera o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo que um país produz em um ano) da França e representa mais que o dobro do PIB combinado dos 44 países menos desenvolvidos do mundo.
Do total estimado, o 0,1% mais rico detém aproximadamente 80% de toda a riqueza offshore não tributada, o que equivale a cerca de US$ 2,84 trilhões. É como se esse grupo mantivesse guardado em cofres secretos um valor superior a três vezes o PIB brasileiro. A Oxfam ressalta que, uma década após o vazamento dos Panama Papers — quando milhões de documentos revelaram como políticos, empresários e celebridades usavam empresas offshore para esconder patrimônio —, a prática continua disseminada. Segundo a organização, essa riqueza oculta representa aproximadamente 3,2% do PIB global.
A título de comparação internacional, enquanto países desenvolvidos avançaram na redução da evasão fiscal por meio do sistema de Troca Automática de Informações (AEOI, mecanismo que permite aos governos compartilharem dados bancários de seus cidadãos), a maioria dos países do Sul Global, incluindo o Brasil, permanece excluída desse sistema, apesar da necessidade urgente de receita tributária. Pesquisadores atribuem ao AEOI a redução da parcela não tributada da riqueza offshore nos últimos anos — mas esse progresso beneficiou principalmente nações ricas.
Christian Hallum, coordenador de Tributação da Oxfam Internacional, afirma que “quando milionários e bilionários escondem trilhões de dólares em paraísos fiscais offshore, eles se colocam acima das obrigações que regem o resto da sociedade”. As consequências, segundo a organização, são hospitais públicos e escolas privados de recursos, desigualdade crescente e pessoas comuns forçadas a arcar com os custos de um sistema projetado para enriquecer um pequeno grupo.
No Brasil, a diretora executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, destaca que “há uma arquitetura global que protege grandes fortunas enquanto a maioria da população paga proporcionalmente mais impostos”. De fato, o sistema tributário brasileiro é conhecido por taxar pesadamente o consumo (impostos embutidos em produtos e serviços, que pesam mais no bolso dos mais pobres) e pouco a renda e o patrimônio dos mais ricos. A Oxfam defende que justiça fiscal passa necessariamente por tributar os super-ricos e acabar com o uso de paraísos fiscais por meio de ação internacional coordenada.
📊 Número do Dia
US$ 3,55 trilhões — Valor estimado de riqueza não tributada escondida em paraísos fiscais pelo 0,1% mais rico em 2024, segundo a Oxfam — montante superior ao PIB da França
Por que isso importa
Para o cidadão brasileiro, essa concentração de riqueza oculta significa menos recursos para saúde, educação e infraestrutura. Quando super-ricos sonegam impostos via paraísos fiscais, o peso da arrecadação recai sobre a classe média e os mais pobres, que pagam proporcionalmente mais em impostos sobre consumo. Para o país, representa perda de bilhões em receitas que poderiam financiar políticas públicas. A exclusão do Brasil do sistema internacional de troca de informações bancárias dificulta ainda mais o combate à evasão fiscal, perpetuando a desigualdade.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/oxfam-estima-em-us-355-tri-riqueza-escondida-em-paraisos-fiscais












