O mercado de carros usados no Brasil está dando sinais claros de esfriamento. De acordo com levantamento do banco BV divulgado em agosto de 2026, os preços dos automóveis leves usados subiram apenas 0,07% em julho — a menor variação mensal desde março. O resultado representa uma desaceleração acentuada em relação a junho, quando o Índice BV Auto (IBV Auto) havia registrado alta de 0,57%. No acumulado de 2026, o índice sobe 3,56%, enquanto em 12 meses a valorização recuou de 6,87% para 6,10%.
Vários fatores explicam essa perda de impulso. Segundo Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, o ambiente está mais desafiador: crédito ainda restritivo (ou seja, juros altos e financiamento caro), desaceleração do mercado de trabalho, aumento da inadimplência (quando as pessoas não conseguem pagar suas dívidas) e elevado comprometimento da renda das famílias. Além disso, a concorrência das montadoras chinesas tem pressionado os preços dos carros novos para baixo, tornando-os mais competitivos e reduzindo o apelo dos usados. É como se o mercado de usados perdesse espaço porque a opção de comprar um carro zero-quilômetro ficou relativamente mais atraente.
A variação de preços não foi uniforme entre os modelos. Em julho, os carros que mais se valorizaram foram o GM Celta (+2,62%), o Fiat Palio (+2,20%) e o Nissan Kicks (+1,92%). Na outra ponta, os maiores recuos ficaram com o Volkswagen Fox (-2,01%), o Jeep Compass (-1,74%) e o Chevrolet Onix (-1,11%). Regionalmente, o Nordeste apresentou a maior retração (-0,19%), enquanto Centro-Oeste (+0,29%) e Sul (+0,22%) registraram alta. Entre os estados, o Piauí teve a maior queda (-1,08%) e o Amapá, a maior valorização (+0,71%).
Elétricos continuam perdendo valor
Os veículos elétricos seguem liderando as perdas de valor no mercado brasileiro, embora o ritmo de desvalorização esteja se estabilizando. Modelos fabricados em 2023 acumulam desvalorização de 46,15% — mais que o dobro da perda registrada por veículos a combustão comparáveis (21,40%) e bem acima dos híbridos (26,85%). A título de comparação, nos Estados Unidos e na Europa, onde a infraestrutura de recarga é mais desenvolvida e os incentivos fiscais são maiores, a desvalorização de elétricos usados costuma ser menor, embora ainda superior à dos carros a combustão.
Esse cenário reflete a combinação de incertezas tecnológicas, falta de infraestrutura de recarga no Brasil e receio dos compradores quanto à durabilidade das baterias. Para o consumidor, isso significa que quem comprou um carro elétrico novo há poucos anos enfrenta uma perda patrimonial significativa ao tentar revendê-lo. Por outro lado, pode representar uma oportunidade para quem deseja adquirir um elétrico usado a preços mais acessíveis, desde que esteja ciente dos riscos e limitações.
📊 Número do Dia
0,07% , Alta dos preços de carros usados em julho de 2026, a menor desde março
Por que isso importa
Para o consumidor, a estabilização dos preços de usados pode significar o fim de um ciclo de valorização que tornava vantajoso revender o carro após alguns anos de uso. Para quem pretende comprar, a desaceleração indica que o momento de negociar pode estar mais favorável, especialmente se os juros começarem a cair. Para o setor automotivo, o arrefecimento do mercado de usados reflete a pressão competitiva das montadoras chinesas e a necessidade de ajustar estratégias comerciais em um ambiente de crédito caro e renda comprometida.


