O déficit primário ocorre quando o governo gasta mais do que arrecada, sem contar os juros da dívida pública — é como se uma família gastasse mais do que ganha no mês, sem considerar as parcelas do cartão de crédito. Em maio de 2026, esse rombo chegou a R$ 53,3 bilhões, informou o Tesouro Nacional nesta segunda-feira (29). Para efeito de comparação, em maio de 2025, o déficit havia sido de R$ 40,2 bilhões — uma piora de 32,6% em valores reais.
A deterioração das contas públicas reflete um descompasso entre receitas e despesas. Enquanto a arrecadação cresceu 5,5% acima da inflação em relação a maio de 2025, os gastos avançaram 9,4% no mesmo período. As receitas líquidas somaram R$ 198 bilhões, mas as despesas alcançaram R$ 251,2 bilhões — uma diferença de mais de R$ 53 bilhões que precisou ser coberta com endividamento.
O que pressionou os gastos
O principal vilão do resultado foram as despesas discricionárias — aquelas que o governo pode, em tese, controlar, como custeio da máquina pública e investimentos. Essas despesas aumentaram R$ 16,7 bilhões em termos reais, com destaque para investimentos (alta de 73,9%) e custeio administrativo (crescimento de 19,7%). Além disso, os benefícios previdenciários — aposentadorias e pensões pagas pelo INSS — subiram R$ 4,9 bilhões.
Outro fator relevante foi o calendário de pagamento de precatórios, que são dívidas do governo reconhecidas pela Justiça. Em 2025, esses débitos foram quitados em maio; em 2026, o pagamento ocorreu em junho, o que alterou a base de comparação e inflou artificialmente algumas rubricas de despesa. As emendas parlamentares — recursos que deputados e senadores destinam a obras e projetos em suas bases eleitorais — também aceleraram, com previsão de R$ 49,9 bilhões no orçamento de 2026.
Arrecadação cresce, mas não basta
Apesar do déficit, a arrecadação federal teve desempenho positivo. As receitas com impostos e contribuições somaram R$ 266,8 bilhões em maio, o maior resultado para o mês desde 2000, segundo a Receita Federal. Houve crescimento expressivo na Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), que subiu 36,7%, no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), com alta de 30,4%, e nos royalties do petróleo, que avançaram 84,5%.
Porém, houve queda nos dividendos recebidos de empresas estatais — o governo arrecadou apenas R$ 2,3 bilhões nessa rubrica em maio de 2026, contra R$ 9,6 bilhões no mesmo mês de 2025. Essa redução compensou parte dos ganhos com impostos.
Comparação internacional
O déficit primário brasileiro de 1,06% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo que o país produz) nos últimos 12 meses está acima da média de países emergentes comparáveis. A título de comparação, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Chile registrou superávit primário de 0,3% do PIB em 2025, enquanto o México manteve déficit de 0,8%. Entre economias desenvolvidas, a Alemanha apresentou superávit de 1,2% do PIB no mesmo período, refletindo maior disciplina fiscal.
Cenário no ano
No acumulado de janeiro a maio de 2026, o Governo Central registrou déficit de R$ 44,4 bilhões — uma reversão drástica em relação ao superávit de R$ 32,9 bilhões observado no mesmo período de 2025. Descontada a inflação, esse é o déficit mais alto para os cinco primeiros meses do ano desde 2020, quando a pandemia de covid-19 forçou o governo a ampliar gastos emergenciais. A receita líquida acumulada chegou a R$ 1,059 trilhão, enquanto as despesas alcançaram R$ 1,104 trilhão.
Para 2026, a meta oficial do governo prevê superávit primário de cerca de R$ 34,3 bilhões, mas há uma margem de tolerância que permite resultado até zero — ou seja, receitas e despesas empatadas. Com exceções previstas em lei para determinadas despesas, como precatórios, a estimativa atual do governo é encerrar o ano com déficit de aproximadamente R$ 60,3 bilhões, segundo informou o Tesouro Nacional.
📊 Número do Dia
R$ 53,3 bilhões — Déficit primário do Governo Central em maio de 2026, o pior resultado para o mês desde 2024 em valores corrigidos pela inflação
Por que isso importa
O déficit primário crescente indica que o governo brasileiro está gastando muito mais do que arrecada, o que pressiona a dívida pública e pode levar a juros mais altos no futuro. Para o cidadão, isso significa que serviços públicos e investimentos em infraestrutura competem com o pagamento de juros da dívida. Para o investidor, sinaliza risco fiscal e pode afetar a confiança no país, impactando o câmbio e a Bolsa. Para as empresas, juros elevados encarecem o crédito e reduzem a capacidade de investimento.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-06/governo-registra-deficit-primario-de-r-533-bi-em-maio


