Maio terminou com uma conta curiosa: o governo federal decidiu manter subsídios bilionários no diesel, querosene e biodiesel enquanto a bolsa brasileira registrava sua pior queda mensal desde fevereiro de 2023. Coincidência? Talvez. Mas a matemática fiscal raramente é generosa com quem tenta agradar a todos ao mesmo tempo.
A Leitura da Semana
O Ibovespa caiu 7,22% em maio, saindo de 187 mil pontos para a casa dos 173 mil. É o tipo de recuo que faz investidores reverem portfólios e analistas revisarem projeções. O movimento reflete incertezas globais, sim, mas também uma desconfiança crescente sobre a capacidade do Brasil de equilibrar contas públicas e promessas eleitorais. Quando a China estagnou sua atividade industrial no mesmo período, o recado ficou claro: o mundo está mais cauteloso, e mercados emergentes sentem primeiro.
Enquanto isso, o governo prorrogou por mais dois meses a isenção quase total de impostos federais sobre querosene de aviação e biodiesel, além de anunciar subsídio de R$ 1,12 por litro no diesel até dezembro. A medida alivia o bolso de transportadores e companhias aéreas, setores politicamente sensíveis. Mas cada real não arrecadado precisa ser compensado em algum lugar. E quando a Defesa e Cidades lideram os bloqueios orçamentários, como noticiado esta semana, fica evidente que a conta está sendo empurrada para frente, não resolvida.
A construção civil brasileira, segundo análise publicada, produz menos hoje do que há 30 anos. É um dado que resume bem o dilema nacional: crescimento travado por gargalos estruturais que subsídios pontuais não resolvem. O setor depende de crédito, segurança jurídica e previsibilidade. Três coisas que não se compram com renúncia fiscal temporária.
Perspectiva & Olhar da Redação
O que conecta uma bolsa em queda, subsídios prorrogados e uma construção civil estagnada? A mesma lógica: o Brasil continua administrando sintomas, não causas. Subsídios aliviam pressões imediatas, mas não criam ambiente para investimento de longo prazo. A bolsa reflete exatamente isso: desconfiança sobre a sustentabilidade do modelo.
Não se trata de catastrofismo. O Brasil tem fundamentos sólidos, um agronegócio pujante e uma economia diversificada. Mas mercados cobram coerência. E coerência significa escolhas: ou se controla gasto público e se ganha credibilidade fiscal, ou se distribui benefícios setoriais e se perde previsibilidade. Fazer os dois ao mesmo tempo é a mágica que ninguém ainda conseguiu realizar sem consequências.
A boa notícia é que ainda há tempo. Junho começa com a bandeira tarifária amarela na energia, mais um custo repassado ao consumidor, mas também com a possibilidade de ajustes. O mercado não pede milagres. Pede clareza.
Afinal, até quando é possível subsidiar o presente sem hipotecar o futuro?
Vitor Ribeiro
Correio Capital


