O governo federal reabriu o programa Brasil Soberano com R$ 21 bilhões em crédito para empresas brasileiras atingidas pelo tarifaço dos Estados Unidos e pela guerra no Oriente Médio. Segundo o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o banco público que financia projetos de longo prazo no país), o valor será composto por R$ 15 bilhões do FGE (Fundo de Garantia à Exportação, uma espécie de poupança do governo para proteger exportadores) e R$ 6 bilhões de recursos próprios do banco.
A principal novidade desta segunda edição é a ampliação do escopo. Além das empresas prejudicadas pelas tarifas impostas por Donald Trump — que chegaram a 25% sobre aço e alumínio brasileiros —, agora também poderão acessar o crédito companhias afetadas pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio. Isso inclui exportadores para países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã e Iraque, segundo informou o BNDES em nota.
Quem pode pedir o crédito
Três grupos de empresas têm direito ao financiamento, conforme portaria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O primeiro grupo inclui exportadores de bens industriais — como aço, cobre, alumínio, automóveis e móveis — cujas vendas ao exterior representem pelo menos 5% do faturamento entre agosto de 2024 e julho de 2025. Imagine uma fábrica de autopeças que vende R$ 100 milhões por ano: se pelo menos R$ 5 milhões vierem de exportações, ela se qualifica.
O segundo grupo abrange empresas de setores industriais de média ou alta tecnologia — como química, farmacêutica, máquinas e equipamentos eletrônicos — considerados estratégicos para a economia brasileira ou para a transição para baixo carbono (a mudança para fontes de energia mais limpas). Já o terceiro grupo inclui exportadores para o Oriente Médio que tenham pelo menos 5% do faturamento vindo dessa região em 2025.
Condições e taxas de juros
O BNDES criou quatro linhas de crédito com taxas que variam de 1,06% a 1,35% ao mês — o que equivale a cerca de 13% a 17% ao ano. Para efeito de comparação, o juro médio do crédito corporativo no Brasil gira em torno de 20% ao ano, segundo dados do Banco Central, o que torna essas linhas mais baratas que o mercado. O prazo de pagamento vai de 60 meses (5 anos) para capital de giro (dinheiro para pagar despesas do dia a dia, como salários e fornecedores) até 240 meses (20 anos) para investimentos em ampliação da capacidade produtiva.
A linha mais barata é a de investimento, com taxa de 1,06% ao mês e prazo de até 20 anos, destinada a projetos de expansão, inovação tecnológica ou adaptação de processos. Cada empresa pode tomar até R$ 50 milhões por linha de crédito, o que significa que uma companhia elegível em múltiplas categorias poderia, teoricamente, acessar mais de R$ 50 milhões no total.
Primeira edição ficou abaixo do esperado
A primeira edição do Brasil Soberano, lançada em agosto de 2025, tinha R$ 40 bilhões disponíveis, mas aprovou apenas R$ 16,2 bilhões em empréstimos até dezembro — menos da metade do total. O programa foi encerrado porque a medida provisória que o criou perdeu validade após não ser convertida em lei pelo Congresso no prazo de 120 dias. Medidas provisórias são decretos do presidente que têm força de lei imediata, mas precisam ser aprovados pelos deputados e senadores para se tornarem permanentes.
A baixa adesão pode ter ocorrido por diversos fatores: burocracia no processo de solicitação, desconhecimento do programa pelas empresas menores ou simplesmente porque nem todas as companhias elegíveis precisavam de crédito naquele momento. A título de comparação, programas emergenciais de crédito na União Europeia durante a pandemia de Covid-19 tiveram adesão de cerca de 60% a 70% dos recursos disponíveis, segundo dados da Comissão Europeia.
Como funciona o acesso
Para solicitar o crédito, empresas dos grupos 1 e 3 (exportadores afetados por tarifas americanas ou pela guerra no Oriente Médio) precisam primeiro verificar sua elegibilidade em um portal do governo, usando certificado digital — uma espécie de assinatura eletrônica que comprova a identidade da empresa. Empresas menores (com faturamento anual até R$ 300 milhões) podem pedir o empréstimo nos bancos comerciais com os quais já trabalham, enquanto grandes companhias podem ir direto ao BNDES.
Já as empresas do grupo 2 (setores estratégicos de média e alta tecnologia) não precisam passar pela verificação prévia e podem solicitar o crédito imediatamente, seja via bancos comerciais ou diretamente no BNDES. Segundo o presidente do banco, Aloizio Mercadante, “cabe ao Estado agir para preservar empregos, sustentar a produção nacional e garantir competitividade no mercado global”.
📊 Número do Dia
R$ 21 bilhões , Valor total disponível no Brasil Soberano 2 para empresas afetadas por tarifas americanas e instabilidade no Oriente Médio
Por que isso importa
O programa representa uma tábua de salvação para empresas exportadoras brasileiras em momento de forte instabilidade no comércio internacional. Com as tarifas de Trump encarecendo produtos brasileiros nos EUA e a guerra no Oriente Médio dificultando negócios na região, o crédito subsidiado pode ser a diferença entre manter empregos e fechar fábricas. Para o cidadão, isso significa proteção de postos de trabalho em setores industriais. Para investidores, sinaliza que o governo está disposto a usar o BNDES como ferramenta anticíclica — ou seja, injetar dinheiro na economia quando o setor privado está retraído. A questão é se a adesão será maior que na primeira edição, quando menos da metade dos recursos foi utilizada.












