O Brasil detém 23% das reservas globais de terras raras — um grupo de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), são 21 milhões de toneladas concentradas principalmente em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. Apesar do nome, terras raras não são necessariamente escassas na natureza, mas estão dispersas, o que dificulta sua exploração econômica.
Para entender a importância desses minerais, imagine que eles são como ingredientes raros de uma receita: sem eles, não é possível fabricar smartphones, baterias de veículos elétricos ou painéis solares. A diferença entre terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos está no papel que desempenham: terras raras são um grupo químico específico; minerais estratégicos são aqueles essenciais para o desenvolvimento econômico de um país; e minerais críticos são aqueles cujo fornecimento envolve riscos, como concentração geográfica ou instabilidade política. Toda terra rara pode ser estratégica, mas nem todo mineral estratégico é terra rara.
O paradoxo brasileiro
Além das terras raras, o Brasil lidera as reservas mundiais de nióbio (94% do total global) e ocupa o segundo lugar em grafita (26%) e o terceiro em níquel (12%). Segundo o Ministério de Minas e Energia, o país possui uma lista oficial de minerais estratégicos dividida em três grupos: aqueles que precisam ser importados (como fosfato e potássio), os usados em alta tecnologia (como lítio e cobalto) e os que geram superávit comercial (como ferro e ouro).
O problema é que o Brasil continua exportando matéria-prima bruta e importando produtos de maior valor agregado. É como vender café em grão e comprar de volta o café solúvel: o lucro fica com quem processa. Segundo o professor Luiz Jardim Wanderley, da Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em mineração, “o Brasil mantém o mesmo padrão de dependência que teve ao longo de sua história. Foi assim com o ouro colonial, passando pelo ferro e até o petróleo”.
Comparação internacional
A China domina o refino e a produção de terras raras, controlando cerca de 70% do mercado global — uma posição que preocupa Estados Unidos e União Europeia, que buscam diversificar fornecedores. A título de comparação, enquanto o Brasil tem a segunda maior reserva, a China detém a primeira (44 milhões de toneladas, segundo o USGS) e controla toda a cadeia produtiva, do minério ao produto final. Essa concentração geográfica transforma terras raras em arma geopolítica: em 2010, a China restringiu exportações durante uma disputa com o Japão, causando pânico nos mercados.
O desafio brasileiro não está apenas na extração, mas no beneficiamento e refino — etapas complexas que agregam valor e geram empregos qualificados. Sem isso, o país permanece na base da cadeia produtiva, exportando minério bruto e importando tecnologia pronta.
O custo ambiental
A exploração de terras raras e minerais críticos gera impactos ambientais significativos, como contaminação de recursos hídricos e desmatamento. Segundo Jardim Wanderley, “não existe mineração sustentável. Toda mineração causa impactos ambientais pesados, como o comprometimento de recursos hídricos. Também causa pressão econômica nos municípios: aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana”.
O geógrafo alerta que, mesmo com tecnologias menos degradantes, a mineração continuará a desmontar montanhas e afetar cursos de água. “Precisamos pensar com muita calma se realmente vale a pena, já que perdemos muitos recursos naturais e os efeitos socioambientais são significativos”, afirma. A questão central é se o Brasil conseguirá transformar sua riqueza mineral em desenvolvimento econômico sem repetir os erros históricos de degradação ambiental e dependência externa.
📊 Número do Dia
23% — Fatia das reservas globais de terras raras que pertence ao Brasil, a segunda maior do mundo
Por que isso importa
Para o cidadão, a exploração de terras raras pode gerar empregos e receitas, mas também traz riscos ambientais e sociais, como contaminação de água e pressão sobre comunidades locais. Para empresas, o Brasil pode se tornar fornecedor estratégico em um mercado dominado pela China, mas só se investir em refino e beneficiamento. Para investidores, o setor de minerais críticos oferece oportunidades em um contexto de transição energética global, mas exige atenção aos riscos regulatórios e ambientais.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/terras-raras-minerais-estrategicos-e-criticos-entenda-diferencas












