Pular para o conteúdo
segunda-feira, 27 de julho de 2026 Brasil

Economia com profundidade. Decisões com confiança.

Mercados
Carregando cotações...
DÓLAR --
BRT 

Venda de mineradora brasileira aos EUA vai ao STF

O partido Rede Sustentabilidade e a deputada Heloisa Helena ingressaram no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão da venda da mineradora Serra Verde, de Goiás, para a americana USA Rare Earth. O negócio, avaliado em US$ 2,8 bilhões, envolve a única produtora de terras-raras em escala comercial fora da Ásia.

Três advogados de terno descendo escadaria do STF com pastas, negócios corporativos mineração
Profissionais do direito chegam ao STF para audiência sobre venda de mineradora brasileira.

A Serra Verde, localizada em Minaçu (GO), extrai elementos de terras-raras — metais especiais usados em carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. A empresa americana USA Rare Earth, listada na bolsa Nasdaq, anunciou em 20 de abril a aquisição por US$ 300 milhões em dinheiro mais a emissão de cerca de 126,8 milhões de ações. A conclusão do negócio está prevista para o terceiro trimestre de 2026.

Terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de tecnologias modernas — funcionam como ingredientes insubstituíveis em ímãs de alta potência, baterias e componentes eletrônicos. O Brasil detém 21 milhões de toneladas de reservas potenciais desses minerais, a segunda maior do mundo, atrás apenas da China, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Por que a venda preocupa

A ação no STF argumenta que as regras brasileiras atuais são insuficientes para impedir que recursos minerais estratégicos — que pertencem à União — passem para controle estrangeiro. Para o partido Rede, ao permitir a venda nos moldes propostos, o Estado brasileiro deixou de proteger princípios constitucionais como soberania nacional e desenvolvimento econômico orientado pelo interesse do país.

Um ponto central da controvérsia é o apoio financeiro do governo americano à compradora. A USA Rare Earth recebeu US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio dos EUA, e a Serra Verde assinou empréstimo de US$ 565 milhões com a DFC, agência de fomento americana. Deputados federais argumentam que esse financiamento estatal estrangeiro configura intervenção indireta de outra nação em setor estratégico brasileiro. É como se o governo americano estivesse, indiretamente, comprando um ativo que pertence ao povo brasileiro.

Contexto geopolítico

A disputa por terras-raras ganhou dimensão global depois que a China, em 2025, restringiu exportações desses minerais, ameaçando cadeias industriais em todo o mundo. A China domina cerca de 70% da produção mundial de terras-raras e praticamente 90% do refino desses elementos. A título de comparação, os Estados Unidos dependem quase inteiramente de importações chinesas para suprir sua indústria de defesa e tecnologia — daí o interesse estratégico americano em garantir fontes alternativas como a brasileira.

O presidente Lula comentou o tema durante visita à Espanha, afirmando que o governo pretende garantir a soberania do país no setor: “Ninguém, no nosso Brasil, será dono da nossa riqueza mineral”, declarou. Apesar disso, o governo federal não se manifestou publicamente sobre as ações judiciais protocoladas.

Próximos passos

A Agência Nacional de Mineração (ANM) já aprovou a transferência de controle da Serra Verde, mas deputados questionam se a análise foi superficial demais. Além da ação no STF, parlamentares acionaram a Procuradoria-Geral da República pedindo investigação sobre os critérios adotados pela ANM para autorizar a operação. A Rede Sustentabilidade também encaminhou representações ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público Federal.

A Serra Verde informou que a empresa resultante da fusão terá acesso a tecnologias avançadas de processamento e operará toda a cadeia produtiva, da mineração à fabricação de ímãs, com presença no Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido. A USA Rare Earth não respondeu aos pedidos de comentário, segundo reportagem de O Globo.

📊 Número do Dia

21 milhões de toneladas , Reservas potenciais de terras-raras no Brasil, a segunda maior do mundo, atrás apenas da China

Por que isso importa

A venda da Serra Verde coloca em xeque a capacidade do Brasil de controlar recursos minerais estratégicos num momento de disputa geopolítica global. Para o cidadão, significa questionar se o país conseguirá capturar o valor econômico desses minerais — essenciais para a transição energética e a indústria de defesa — ou se apenas exportará matéria-prima enquanto outros países agregam valor. Para investidores, a indefinição jurídica cria incerteza sobre operações futuras no setor mineral. Para empresas, sinaliza que aquisições de ativos estratégicos enfrentarão escrutínio crescente, especialmente quando envolvem financiamento estatal estrangeiro.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/04/25/rede-vai-ao-stf-para-suspender-venda-de-mineradora-brasileira-de-terras-raras-aos-eua.ghtml