O editorial de O Globo parte de uma constatação simples e desconfortável: quem venceu as eleições não terá o intervalo habitual entre a apuração e o enfrentamento dos primeiros problemas. Segundo o texto, o El Nino, caracterizado pelo aquecimento anormal da superfície do Oceano Pacífico equatorial, já afeta a vida de muita gente e já está na agenda dos gestores públicos, com tendência de agravamento conforme os serviços de meteorologia citados pela publicação.
Um choque de oferta com endereço geográfico
O padrão descrito é assimétrico. O editorial registra que o fenômeno provoca seca no Norte e no Nordeste e chuvas e inundações no Sul. Em linguagem econômica, trata-se de um choque de oferta: um evento que não nasce da demanda dos consumidores nem de decisões de política econômica, mas da capacidade física de produzir e transportar bens. Choques desse tipo tendem a ser mais difíceis de administrar do que oscilações de demanda, porque as ferramentas convencionais de política macroeconômica não criam chuva onde falta nem drenam água onde sobra.
A assimetria regional importa. Seca e inundação não se compensam contabilmente, ainda que atinjam o mesmo país. Cada uma impõe custos próprios, em momentos distintos e sobre populações distintas, e cada uma exige respostas administrativas diferentes. O gestor que precisa racionar água não enfrenta o mesmo problema de quem precisa reconstruir pontes.
Por que isso entra no orçamento público
Eventos climáticos extremos convertem risco em despesa. Quando a produção agrícola é comprometida ou a infraestrutura é danificada, o setor público costuma ser acionado em duas frentes: socorro emergencial e recomposição de ativos. Ambas pressionam o caixa justamente quando a arrecadação local pode estar enfraquecida pela queda de atividade na região afetada. O resultado típico é uma tensão entre urgência humanitária e disciplina fiscal, resolvida com frequência por meio de créditos extraordinários.
O custo de governar sem preparo prévio
Há uma diferença econômica relevante entre gastar antes e gastar depois. Investimento em drenagem, armazenamento de água e planejamento de contingência é despesa programável, sujeita a licitação, comparação de custos e fiscalização. Gasto emergencial é o oposto: feito sob pressão, com menos concorrência entre fornecedores e maior exposição a sobrepreço. Prefeitos e governadores que iniciam mandato com o fenômeno já em curso herdam a segunda situação, não a primeira.
O editorial não apresenta números de perdas, projeções de inflação de alimentos ou estimativas de custo fiscal, e nada disso pode ser deduzido a partir do material. O que o texto estabelece é o diagnóstico e a urgência. A conversão desse diagnóstico em capacidade administrativa efetiva, com orçamento e execução verificáveis, permanece como questão aberta para os novos governos.
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Por que isso importa
Um choque climático que atinge simultaneamente a produção no Norte e Nordeste e a infraestrutura no Sul transforma risco ambiental em despesa pública não programada, pressionando orçamentos locais no exato momento em que novos gestores assumem, sem tempo para planejar respostas mais baratas e mais fiscalizáveis.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2026/10/el-nino-desafia-os-candidatos-eleitos-antes-mesmo-da-posse.ghtml
